Pega Essa Dica- Mostra Mulheres no Cinema do Leste Europeu

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Mostra Mulheres no Cinema do Leste Europeu

Entre os dias 25 de junho e 2 de julho, o Cinesesc apresenta a mostra Mulheres no Cinema do Leste Europeu, reunindo 23 filmes, entre clássicos e produções contemporâneas, dirigidos por 16 cineastas de 10 países da região: Polônia, Ucrânia, Geórgia, Estônia, Rússia, Hungria, Bósnia e Herzegovina, Armênia e Romênia.

Com curadoria de Maria Vragova e Luiz Gustavo Carvalho, a mostra se inicia com O Meu Século 20 (Az én XX. századom, 1989), da diretora húngara Ildikó Enyedi, uma das vozes mais singulares do cinema europeu contemporâneo.

Vencedor da Câmera de Ouro em Cannes, o filme articula uma linguagem cinematográfica inovadora ao revisitar o nascimento do século XX por meio de uma narrativa alegórica, profundamente simbólica. Enyedi constrói um conto de fadas moderno em que a eletricidade, introduzida na primeira cena com a presença histórica de Thomas Edson, se torna um símbolo recorrente e multifacetado. A luz, em suas diferentes manifestações (tecnológica, natural, intelectual), estrutura o discurso visual e temático do filme.

A dualidade é uma das forças do filme. Logo na infância, as gêmeas protagonistas são separadas e levadas literalmente cada uma em direção opostas, um eixo dialético que permeia toda a obra. Quando adultas, uma se torna uma mulher livre, entregue ao prazer, enquanto a outra assume uma postura anarquista e feminista. Ambas, contudo, desafiam os paradigmas de gênero são figuras incompreendidas, modernas, indomáveis e progressistas, retratando as contradições e os desafios do novo século.

Essa dualidade não se limita às personagens; ela se estende ao próprio discurso do filme, que contrapõe ciência e misticismo, razão e desejo, tradição e ruptura. Enyedi opera com a justaposição de formas e ideias, explorando a fragmentação narrativa, o uso do preto e branco com composição pictórica e uma mise-en-scène que remete tanto ao cinema mudo quanto à linguagem pós-moderna.

A fotografia, marcada por um tratamento visual refinado e simbolista, intensifica a atmosfera onírica e reflexiva. A montagem, não linear, enfatiza a fluidez temporal e o caráter cíclico da história, um século que se anuncia com promessas de modernidade, mas cujas contradições já se delineiam desde seu início.

O Meu Século 20 é uma obra de rara densidade formal e filosófica. Sua exibição na abertura da mostra é não apenas pertinente, mas exemplar: representa a complexidade das representações femininas no cinema do Leste Europeu e evidencia a potência estética e política dessas cineastas. Trata-se de uma experiência cinematográfica imprescindível, para ser vista, revista e debatida.

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