
Yõg Ãtak: Meu Pai, Kaiowá é um documentário dirigido por Sueli Maxakali que se desenrola a partir de uma busca íntima e dolorosa: o paradeiro de Luís Kaiowá, pai da diretora e também de Maiza Maxakali. Durante a Ditadura Militar no Brasil, Luís foi levado pelas forças de repressão e afastado abruptamente da vida que levava, deixando para trás não apenas sua família, mas também parte da história de seu povo. Quatro décadas depois, suas filhas seguem firmes na jornada de tentar encontrá-lo ou, ao menos, reconstruir os fios de uma memória dilacerada pela violência do Estado. Mas o documentário vai muito além de um drama familiar. À medida que Sueli e Maiza avançam em sua busca, o filme revela o entrelaçamento dessa história pessoal com a luta coletiva dos povos originários no Brasil em especial das etnias Tikmũ’ũn e Kaiowá por território, identidade e dignidade. Mais do que um retrato sobre desaparecimento e ausência, Yõg Ãtak escancara o cenário ainda alarmante de apagamento e violência que os povos indígenas enfrentam.

O documentário carrega uma camada política profunda ao evidenciar como o passado autoritário do país segue reverberando sobre as comunidades indígenas, seja por meio do descaso, seja pela violência explícita. Sueli Maxakali, com sensibilidade e um olhar atento às raízes, transforma sua dor e a de sua família em um grito coletivo de resistência. O longa denuncia, mas também preserva dando visibilidade a modos de vida únicos que lutam diariamente para existir e se manter vivos em um país onde o silenciamento indígena ainda é estrutural.

É, ainda, uma obra sobre línguas e sobre tempo, o filme convida o espectador a atravessar as barreiras do idioma e a se permitir mergulhar em um tempo que não é o da urgência, da resposta rápida ou da fala interrompida que conhecemos. Na língua dos Maxakali, a comunicação exige que tudo aconteça em um ritmo desacelerado, quase ritualístico. Não há pressa, não há sobreposição de vozes, e, muitas vezes, não há sequer troca de olhares. Fala-se baixo, de forma contínua e paciente, como quem entende que a palavra carrega em si não apenas informação, mas memória e território. O diálogo, à primeira vista, parece não evoluir mas talvez seja justamente esse o convite: experimentar um outro modo de vida, de expressão e de compreensão do mundo. A fala se alonga e a escuta torna-se o próprio aprendizado. “Em uma hora, você não fala nada”, diz o ancião ao narrar os acontecimentos da ditadura, em um lembrete silencioso de que há um abismo entre o tempo de fala dos Maxakali e o tempo apressado, fragmentado, que rege o nosso cotidiano. É nessa diferença de tempo e linguagem que o documentário encontra um dos seus gestos mais poderosos: o de fazer o espectador desacelerar, escutar e, finalmente, perceber que resistir também é preservar o direito de falar e de ouvir no próprio tempo.

A peculiaridade do tempo da linguagem falada reverbera diretamente no tempo da linguagem cinematográfica. Não há pressa no trajeto. A tranquilidade dos gestos, das conversas e das relações entre os indivíduos permite aos cineastas construírem planos longos e pacientes, que nos convidam à contemplação e ao respeito por um outro modo de existir e, consequentemente, por um outro modo de fazer cinema. Essa escolha, que poderia facilmente soar entediante para públicos acostumados com a urgência e o dinamismo, aqui se revela precisa e respeitosa. Ainda que o ritmo desacelerado possa, em um primeiro momento, parecer pouco atrativo, principalmente para espectadores não familiarizados com esse universo, o documentário encontra um equilíbrio raro: suas cenas contemplativas surgem no momento certo e duram o tempo necessário nem mais, nem menos. Diferente de outros filmes que abordam povos originários e acabam se perdendo em um excesso de esteticismo vazio, Yõg Ãtak: Meu Pai, Kaiowá compreende que o tempo das imagens precisa estar em sintonia com o tempo dos corpos e das palavras que retrata. Assim, o filme não apenas documenta, mas também respeita e, ao respeitar, convida o espectador a uma experiência genuína de escuta e presença.

