Visto na 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
Um thriller de espionagem carrega muito da ideia da dupla personalidade, em que uma persona costuma predominar sobre a outra. Como consequência, surge um certo tipo de apagamento: dois nomes, duas vidas. Um agente duplo se escondendo pelo país pode passar despercebido, mas acaba carregando consigo muito da história do nosso próprio país, um Brasil que já travou uma guerra consigo mesmo, que já apagou a história de grande parte de sua população, que já precisou, e ainda precisa, esconder-se para poder viver. Um país construído por memórias: muitas que carregamos até hoje e outras que jamais conseguiremos lembrar. Essa é uma das diversas histórias que O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, conta: a memória apagada de uma nação.
Somos apresentados ao Brasil de 1977, em pleno período da ditadura militar, num país que escancara cor, gente carismática e muita pirraça. Em meio ao carnaval de Recife encontramos Marcelo (Wagner Moura), que acaba de retornar à sua cidade natal após fugir de São Paulo depois de ser ameaçado. Marcelo encontra abrigo em um prédio conhecido como “lar dos refugiados” e é muito bem recebido pela maravilhosa e carismática Dona Sebastiana (Tânia Maria), que, assim como ele, também carrega um passado que a atormenta. Os filmes do Kleber costumam ser sobre atritos, esse daqui também é: do Brasil com ele mesmo.
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Nos deparamos constantemente com a ideia da vida dupla. Logo no início do filme, um gato com duas cabeças já escancara essa metáfora ao público. Uma vida de fuga, esconderijos e identidades duplicadas, dois nomes, duas existências, em uma época em que o Brasil obrigava parte da população a apagar seu passado e viver uma vida inventada, clandestina e falsa. Isso fica evidente na cena em que conhecemos Hans (Udo Kier), que conta aos policiais ter sido um soldado nazista na Segunda Guerra Mundial e chega a mostrar supostos buracos de bala em seu corpo, marcas que teriam vindo do conflito. Na realidade, porém, ele era apenas um judeu que foi capturado e torturado durante a guerra e que encontrou refúgio no Brasil. É uma cena rápida, mas carregada de história e profundidade: a história de alguém que precisou esconder sua verdadeira identidade para sobreviver.
A cidade de Recife torna-se praticamente um personagem do longa. Foi ali que o diretor viveu parte da infância e cresceu acompanhando essas memórias e histórias regionais se transformarem, quando o folclore ainda estampava os jornais da época. Recife é retratada de forma tão viva que quase sentimos seus cheiros, ouvimos suas músicas e enxergamos suas cores. Kleber Mendonça Filho traz uma nostalgia urbana rica em detalhes, capaz de transportar o espectador diretamente para o Pernambuco de 1977.
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A trama amplia seu mistério ao provocar o público a questionar o que realmente está acontecendo por trás de tudo. O roteiro é tão bem construído que não precisa escancarar suas motivações para que compreendamos o que está em jogo. Uma das cenas mais marcantes do filme é a conversa entre Marcelo e Elza (Maria Fernanda Cândido) em uma pequena sala dentro do histórico Cinema São Luiz. Nesse momento entendemos mais sobre o passado do protagonista: o que o levou a fugir para Recife, o motivo de estar sendo protegido e, principalmente, o perigo que o aguarda. É uma sequência que mergulha no verdadeiro clima de um thriller de investigação e perseguição, ao mesmo tempo em que revela muito sobre o Brasil daquele período, um país onde muitas vezes nunca se soube exatamente como a banda tocava, mas sempre se deu um jeito de dançar conforme a música. O mais curioso é perceber que, apesar de toda essa riqueza de detalhes e sensação de veracidade, o filme não é baseado em fatos reais, mas sim em uma ficção.
O Agente Secreto apresenta um épico que demonstra orgulho de ser brasileiro e de contar uma história que se passa aqui. Ao longo da narrativa conhecemos diversos personagens, cada um carregando suas próprias histórias e memórias. O filme evidencia um país vasto em território e rico em cultura e diversidade: pernambucanos, paulistas, cariocas, mineiros, sulistas e pessoas de várias regiões aparecem nesse mosaico humano. O roteiro afiado, escrito por alguém que demonstra profundo conhecimento da história do seu país, sabe exatamente a narrativa que quer contar. No fim das contas, trata-se de um filme sobre a memória de um país e de um povo, um Brasil que resistiu, resiste e continuará resistindo.

