Pega Essa Dica – O Sorveteiro

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O Sorveteiro acompanha uma cidade litorânea tranquila que tem seu verão transformado em um verdadeiro pesadelo quando um misterioso vendedor de sorvetes surge distribuindo picolés capazes de transformar crianças em monstros violentos. Enquanto os pequenos passam a atacar os adultos e espalhar o caos, três jovens que não foram afetados pela maldição tentam descobrir quem é o sorveteiro e como impedir que a carnificina se espalhe.

Já pelo pôster e pelo trailer, O Sorveteiro deixa claro que estamos diante de um filme trash. E eu, particularmente, gosto muito do gênero. Foi justamente por isso que fiquei animada quando vi o trailer. Só que, conforme o filme foi avançando, fui ficando um pouco decepcionada. Não porque esperasse profundidade de um filme como esse, mas porque imaginava encontrar uma mitologia mais interessante por trás do sorveteiro e da própria maldição.

A ideia, por outro lado, é muito boa. Pegar algo tão associado à infância e à inocência, como um caminhão de sorvete, e transformá-lo em uma ameaça é um conceito que funciona. O filme ainda brinca com o contraste entre crianças e violência elas continuam mantendo alguns comportamentos infantis enquanto se transformam em verdadeiros monstros assassinos. É uma combinação absurda, macabra e, em alguns momentos, até engraçada..

O Sorveteiro é MUITO gore. São mortes extremamente gráficas, com direito a sangue, órgãos e todo tipo de violência explícita. O filme não economiza em nada e parece realmente interessado em encontrar maneiras diferentes de chocar o espectador. E o fato de boa parte dessas mortes ser protagonizada por crianças torna tudo ainda mais desconfortável.

Nesse aspecto, preciso dar muitos parabéns à equipe de maquiagem e efeitos. As crianças estão realmente assustadoras. Algumas são, inclusive, excelentes na construção desse aspecto perturbador. Há uma menina em particular que é simplesmente bizarra de tão assustadora. A maquiagem entrega muito e ajuda bastante a criar o desconforto que o filme pretende provocar. O problema é que existe uma diferença entre usar o gore para causar impacto e simplesmente colocar uma morte atrás da outra. E, para mim, o filme acaba ultrapassando esse limite.

Ele tem menos de uma hora e meia e é bastante rápido, mas chega um momento em que a sequência de mortes começa a ficar cansativa justamente porque não existe tempo suficiente entre elas para desenvolver melhor a história. São cenas violentas, uma atrás da outra, quase sempre pensadas para provocar choque ou repulsa. E, apesar de algumas serem criativas, o excesso faz com que o impacto diminua.

Eu teria preferido que algumas dessas cenas fossem retiradas ou reduzidas para que o filme pudesse desenvolver melhor a mitologia do sorveteiro. A história até explica sua origem e sua motivação, mas faz isso de maneira muito rápida. Não é necessariamente que a explicação não faça sentido, para mim, faltou tempo para que ela realmente tivesse peso.

E isso também aparece em outros momentos do roteiro. Existem algumas pontas soltas, situações pouco desenvolvidas e vários furos. Os diálogos também não ajudam muito. São bastante superficiais e, em alguns momentos, caricatos demais. Existem piadas que funcionam e conseguem quebrar um pouco a tensão, mas também há momentos em que o filme tenta inserir um comentário engraçadinho em situações nas quais eu simplesmente pensei “não era a hora”. É justamente aí que entra a característica trash do filme. Ele tenta equilibrar terror, humor e absurdo, e algumas vezes essa mistura funciona muito bem. Em outras, parece que os elementos estão brigando entre si.

Os protagonistas também não são exatamente o ponto forte. O personagem principal, para mim, é bastante fraco, enquanto os outros dois jovens conseguem trazer um pouco mais de personalidade para a história. A personagem feminina, inclusive, apresenta algumas questões relacionadas à adolescência que ajudam a dar um pouco mais de corpo à narrativa.

As atuações dos adultos seguem uma proposta bastante caricata, que combina com o gênero, mas as crianças realmente roubam a cena. Elas conseguem ser irritantes e talvez algumas sejam irritantes até demais mas também são muito boas em transmitir o aspecto perturbador que o filme precisa.

No terror, funciona mais pela repulsa do que pelo medo. Existem algumas tentativas de susto, mas elas não são tão eficientes. O que realmente incomoda são as imagens, a violência e o desconforto de ver crianças fazendo coisas tão brutais. Eu fiquei desconfortável em vários momentos, e acredito que essa seja justamente a intenção. Então, se você tem estômago fraco para gore, definitivamente esse não é o filme para você.

O filme trabalha muito bem com as cores. Temos uma estética extremamente colorida, com figurinos infantis vibrantes e elementos que remetem diretamente ao universo da infância. Esse colorido contrastando com o horror cria uma identidade visual interessante e reforça justamente essa ideia de inocência sendo corrompida. O próprio caminhão de sorvete é um elemento muito marcante. E o sorvete que aparece associado a ele acaba ganhando uma presença quase macabra dentro da história. É uma escolha simples, mas visualmente funciona muito bem.

O final foi uma surpresa positiva para mim. Depois de um processo que achei bastante irregular, gostei do desfecho e do plot twist. Foi um dos momentos em que senti que o filme finalmente conseguiu me prender um pouco mais. No fim das contas,o filme tem uma premissa muito boa e visualmente algumas ideias interessantes, mas, para mim, se perde justamente por apostar demais no gore e de menos no desenvolvimento da própria história.

É um filme para quem realmente gosta de terror trash e, principalmente, de violência gráfica. Se você entrar esperando uma história elaborada, provavelmente vai se decepcionar. Para mim, infelizmente, o conceito era mais interessante do que a execução.