Pega Essa Dica – Ovnis, Monstros e Utopias

Crítica Cinema Pega Essa Dica Pega Essa Novidade Tv Pega Essa

Ovnis, Monstros e Utopias é uma produção portuguesa que reúne três curtas-metragens profundamente imersos no universo queer contemporâneo: Entre a Luz e o Nada, Sob Influência e Uma Rapariga Imaterial. Após passarem por diversos festivais, as obras agora chegam ao público em um formato coletivo, revelando, juntas, uma narrativa expandida sobre identidade, desejo e existência. Como em uma constelação, os elementos fantásticos, os mistérios e as atmosferas oníricas presentes em cada curta se entrelaçam, criando pontos de contato que potencializam a experiência. Essa aproximação não é apenas estética, mas também emocional e política reforçando o sentido de representatividade e liberdade que atravessa cada história. São filmes que, mesmo distintos em estilo e linguagem, compartilham um desejo comum: imaginar e afirmar novas formas de ser no mundo.

O primeiro curta da sessão,Entre a Luz e o Nada, dirigido por Joana de Sousa, acompanha dois dias na vida de Shade, uma jovem não-binária que vive na periferia de Lisboa. Produzido pela Primeira Idade, o filme teve sua estreia mundial no IndieLisboa 2023 e recebeu prêmios importantes, como Melhor Curta-Metragem Portuguesa no Porto Femme 2024. Com uma abordagem intimista e estética quase documental, o curta mergulha na rotina de Shade, mas o faz com delicadeza e profundidade. Em uma das cenas mais marcantes, vemos uma festa com diversos jovens da comunidade LGBTQIA+, onde as conversas fluem com aparente leveza mas logo percebemos que por trás dos risos e da cumplicidade estão temas densos: traumas, abandono, identidade, violência e sobrevivência. Esses diálogos, quase improvisados, dão ao filme uma camada de realismo e proximidade. Em meio a falas sobre relacionamentos, vida noturna e desejos, surge até mesmo uma reflexão poética sobre ser abduzido, como se o desejo de escapar da realidade fosse compartilhado por todos ali. A abdução funciona como metáfora da alienação social vivida por corpos dissidentes, mas também como fantasia de libertação de deixar tudo para trás e habitar outro espaço, outro tempo, outro corpo possível.

O segundo curta da sessão é “Sob Influência”, dirigido por Ricardo Branco, com produção da Promenade e da Muiraquitã Filmes. Estreou no QueerLisboa 2022 e acompanhou uma jovem durante um fim de semana com um grupo de amigos, um período em que a realidade começa a se fragmentar e se tornar cada vez mais difícil de lidar. Entre os três filmes, talvez este seja o mais conceitual e enigmático, flertando com elementos do sobrenatural e mergulhando numa estética que dialoga com a arte performática, a linguagem visual experimental e a psicodelia. É um curta que não se explica de forma direta, ele exige entrega, sensibilidade e atenção aos sinais que se escondem nas entrelinhas das imagens.

Encerrando a sessão, temos “Uma Rapariga Imaterial”, curta dirigido por André Godinho e produzido pela Terratreme. Exibido no Queer Lisboa 2022, o filme foi duplamente premiado: Melhor Filme e Prêmio do Público reconhecimentos que reforçam o impacto e a originalidade dessa obra. A história gira em torno de João, uma “garota imaterial” que deseja ser aquilo que quiser, livre de qualquer limitação imposta por gênero, idade ou cor de pele. Essa premissa já é, por si só, uma afirmação política e poética de liberdade identitária mas é a forma como o filme escolhe contar essa história que o torna tão especial. Dos três curtas, este é o mais longo, provocativo e conceitualmente instigante. Ao longo da narrativa, diferentes pessoas com corpos, vozes e aparências distintas  interpretam a mesma personagem. Essa multiplicidade desconstrói qualquer noção fixa de identidade, e nos leva a um lugar de constante deslocamento. Assim como João, nós, espectadores, também nos sentimos confusos mas essa confusão não é falha, é proposta. Somos convidados a questionar os padrões aos quais estamos condicionados: o que esperamos ver como “continuidade” de um personagem, o que definimos como identidade, e por que buscamos coerência visual para aceitar uma história.

Embora sejam histórias curtas, cada uma delas deixa reflexões profundas que vão alugar um triplex na sua cabeça são obras densas, carregadas de simbolismos e muito conceito. Para apreciar plenamente, é preciso estar atento, aberto e disposto a abraçar uma visão diferente, que desafia padrões e convida a repensar identidade, corpo e existência.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *