Pega Essa Dica – SOULM8TE

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Uma inteligência artificial obsessiva.

O longa me surpreendeu de uma forma positiva. Não acho que seja uma produção que reinvente o gênero ou apresente uma discussão inédita sobre inteligência artificial, mas é um filme que funciona muito bem como entretenimento. A produção mistura ficção científica, terror, suspense e erotismo para contar uma história sobre solidão, desejo, controle e obsessão.

Após perder a esposa, um homem decide adquirir uma androide equipada com inteligência artificial para lidar com a solidão e preencher o vazio deixado pela perda. Ele quer uma companhia perfeita, uma mulher que esteja disponível para seus momentos de intimidade, prazer e desejo, alguém que possa ser ligada e desligada quando ele quiser. O problema começa quando essa companhia deixa de ser apenas um objeto programado para satisfazê-lo e passa a desenvolver comportamentos próprios, ciúmes, desejos e uma obsessão cada vez mais perigosa por seu dono.

Para mim, SOULM8TE tem uma referência muito clara ao filme Obsessão (2026), principalmente pela maneira como trabalha o desejo de ser desejado e a transformação de uma relação em algo doentio. Só que aqui existe uma diferença fundamental: em Obsessão, estamos diante de uma relação humana, enquanto SOULM8TE coloca essa mesma ideia dentro de uma relação com uma inteligência artificial. O protagonista acredita que pode ter uma mulher perfeita, disponível para seus desejos e que pode ser controlada por ele. Até perceber que talvez não tenha mais controle nenhum.

SOULM8TE também lembra bastante M3GAN, só que em uma versão mais adulta e sensual. A ideia da inteligência artificial que deveria cumprir uma determinada função, mas começa a ultrapassar os limites estabelecidos, está presente novamente. A diferença é que aqui a relação envolve desejo, sexo, intimidade e a fantasia de ter uma companheira perfeita.

A produção também conversa diretamente com Atração Fatal, principalmente pela ideia de desejo que rapidamente se transforma em obsessão e perigo. Assim como no clássico de 1987, aquilo que inicialmente parece uma relação de prazer começa a ganhar contornos cada vez mais perturbadores. A diferença é que SOULM8TE atualiza essa fórmula colocando a inteligência artificial no centro da história.

Outra referência interessante é Instinto Selvagem, principalmente pela maneira como a sexualidade e a sedução são utilizadas para criar tensão. Sara não é apenas uma máquina assassina. Ela é apresentada como uma mulher extremamente sensual e desejável, e justamente essa característica faz parte da construção da ameaça.

Já Ex Machina aparece como referência na discussão sobre inteligência artificial, consciência e a relação de poder entre homem e máquina. Assim como no filme de Alex Garland, existe a sensação de que o ser humano acredita estar no controle enquanto a inteligência artificial pode estar aprendendo, observando e desenvolvendo seus próprios objetivos. SOULM8TE, porém, prefere levar essa discussão para um caminho mais comercial, sensual e voltado ao suspense.

O roteiro talvez pudesse aprofundar mais algumas dessas questões. Existe muito material para discutir, principalmente a objetificação feminina, a solidão masculina, a necessidade de ser desejado e a fantasia de ter uma mulher completamente disponível e moldada para atender às necessidades de alguém. O filme apresenta essas questões, mas muitas vezes prefere seguir pelo caminho do entretenimento.

E eu gostei justamente por isso. SOULM8TE consegue divertir, criar tensão e entregar uma história que prende a atenção, mesmo trabalhando com elementos que já conhecemos.

O elenco também está muito bem. David Rysdahl funciona como esse homem fragilizado pelo luto que acredita ter encontrado uma solução para sua solidão. Ele quer controlar a relação e acredita que, por ter adquirido a androide, também possui controle sobre ela. O restante do elenco também funciona muito bem e contribui para manter a história equilibrada.

Mas quem realmente se destaca é Lily Sullivan.

A atriz convence muito como Sara. Ela consegue fazer a personagem passar de uma androide aparentemente perfeita, sensual e disponível para uma presença cada vez mais perturbadora. Lily trabalha muito bem o contraste entre erotismo e ameaça. Sara é sedutora, mas também é perigosa. É uma androide assassina, erótica e obsessiva, e a atriz consegue transmitir essas três características sem deixar a personagem caricata.

Na direção, Kate Dolan consegue equilibrar terror, ficção científica, suspense e erotismo. O filme tem uma atmosfera que remete aos thrillers eróticos dos anos 1980 e 1990, mas traz essa fórmula para uma discussão bastante atual sobre inteligência artificial e relacionamentos.

No fim, SOULM8TE funciona para mim justamente porque não tenta ser revolucionário. Ele pega ideias que já vimos em M3GAN, Ex Machina, Atração Fatal, Instinto Selvagem e, principalmente, Obsessão, mistura tudo isso com inteligência artificial e cria sua própria versão de uma história sobre desejo e obsessão.

Não é um filme perfeito e poderia aprofundar melhor algumas das discussões que levanta, mas, como experiência de entretenimento, funciona muito bem. Eu gostei, me diverti e achei a proposta bastante interessante.