Stella: Vítima e Culpada é um longa dirigido por Kilian Riedhof que nos apresenta à complexa e dolorosa trajetória de Stella Goldschlag, uma jovem judia que vive na Alemanha durante o regime nazista. Seu maior sonho era se tornar uma grande cantora de jazz, mas tudo começou a ruir quando ela e seus pais foram forçados a se esconder para escapar da perseguição. Após serem capturados pela Gestapo, a vida de Stella muda drasticamente. A polícia secreta nazista lhe oferece uma escolha cruel: colaborar com o regime, entregando outros judeus escondidos em troca de sua própria sobrevivência ou enfrentar a tortura e a morte. Entre o medo, a culpa e a vontade de viver, Stella é levada a tomar decisões que a colocam em um dilema moral profundo. A partir daí, o filme mergulha em uma história real e desconcertante sobre sobrevivência, identidade, e até onde alguém pode ir quando os limites da humanidade são postos à prova.
Kilian Riedhof constrói dois mundos que coexistem em tensão. De um lado, temos a Stella sonhadora, apaixonada por jazz, que persegue o desejo de construir uma carreira artística em meio ao caos. Do outro, a realidade brutal da perseguição aos judeus, marcada por abusos, medo e violência. Esses dois universos se alternam com a ajuda de recursos visuais e sonoros alguns discretos, outros mais explícitos que ajudam a transmitir não apenas o contraste, mas a própria dualidade que define a protagonista.

A atmosfera se torna cada vez mais sufocante, acompanhando o ritmo da narrativa e o colapso emocional de Stella. A montagem, o som, a luz e até a forma como a câmera se aproxima dela contribuem para esse desconforto crescente. O filme se destaca justamente por tocar em uma ferida pouco abordada o papel dos chamados “agentes duplos”, pessoas que, para sobreviver, foram forçadas a trair seus próprios. É uma experiência difícil, incômoda, mas necessária. Não busca oferecer respostas fáceis, e sim provocar reflexões sobre escolha, culpa e o que resta da identidade quando tudo é colocado em risco. O resultado é um filme cruel, impactante e historicamente bem pesquisado conduzido com firmeza por uma atriz que parece ter nascido para esse papel.
Paula Beer entrega uma performance arrebatadora, capaz de traduzir todas as camadas de Stella com precisão e intensidade. Em seu olhar e nos silêncios, percebemos os breves vislumbres de esperança e dor de não conseguir viver uma vida plenamente honesta. Há momentos em que ela se agarra a uma falsa ideia de controle, como se sua posição de “colaboradora” lhe devolvesse algum poder mas tudo é, na verdade, uma farsa frágil construída sobre ruínas.
É um filme com cenas extremamente difíceis de assistir e o que torna tudo ainda mais pesado é saber que aquilo não é ficção. Aconteceu. Foi real. E é justamente por isso que obras como essa são tão importantes para que a dor registrada na história não seja apagada, e para que jamais esqueçamos o que aconteceu. Isso não pode se repetir.

