Pega Essa Dica – Verity

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Verity, dirigido por Michael Showalter, acompanha Lowen Ashleigh, uma escritora à beira da ruína financeira, que recebe uma oportunidade irrecusável trabalhar como ghostwriter da autora de sucesso Verity Crawford. Após um grave e misterioso acidente de carro deixar Verity paralisada e impossibilitada de continuar sua obra, Lowen é convidada pelo marido da escritora, Jeremy Crawford, a passar um período na casa da família para estudar suas anotações, ideias e materiais e, assim, finalizar os três últimos volumes da série de maior sucesso de Verity.

Durante sua estadia, Lowen acaba encontrando um manuscrito escondido, que traz revelações perturbadoras sobre o passado da autora, sua família e as tragédias que marcaram sua vida.

Antes de tudo, vale deixar claro eu li o livro e, portanto, é impossível assistir à adaptação sem fazer comparações. Mesmo tentando analisar o filme por si só, conhecer a obra original inevitavelmente interfere na experiência.

Começando pelos pontos positivos, gostei bastante da preocupação em manter alguns elementos do livro fiéis. Existem diálogos e cenas que são praticamente um copia e cola da obra original, e, apesar de sabermos que adaptações precisam fazer mudanças, eu gosto quando existe esse cuidado de transportar determinados momentos para a tela. Para quem leu o livro, é muito gostoso reconhecer essas referências.

Outro ponto que me chamou bastante atenção foram os cenários. As locações foram muito bem escolhidas e o filme consegue construir uma atmosfera fria, sombria e melancólica. A fotografia contribui muito para isso, e a própria casa escolhida para representar a residência dos Crawford funciona perfeitamente. É uma casa em que você realmente consegue enxergar a história acontecendo. A trilha sonora, por outro lado, não me marcou tanto. Acho que ela poderia ter sido mais bem utilizada em determinados momentos, principalmente nas cenas que precisavam construir tensão.

Anne Hathaway como Verity, está sensacional. Anne nunca decepciona, mas acho que aqui ela conseguiu ir ainda mais longe. A Verity possui dois momentos muito importantes dentro da história, e a atriz consegue trabalhar muito bem essas duas facetas aquele olhar vazio, quase ausente, e também a mulher de sucesso misteriosa. 

O filme também consegue prender a atenção. Conforme as coisas vão acontecendo, existe uma curiosidade para entender melhor aquela história. É claro que a experiência não é a mesma de quando estamos lendo o livro, mas existe interesse em descobrir o que está acontecendo. E acho que aqui existe uma questão interessante a experiência de quem leu o livro provavelmente será muito diferente da experiência de quem chega ao filme sem saber absolutamente nada. O ritmo e até algumas revelações podem ser percebidos de maneiras diferentes por esses dois públicos.

Também gostei bastante da escolha dos figurinos, principalmente os da Verity. O vermelho aparece bastante e, para mim, funciona quase como um elemento narrativo. O vestido vermelho é um exemplo, mas existe também aquele casaco vermelho constantemente presente no escritório da Verity. Mesmo quando ela não está ali, o vermelho permanece. E achei interessante pensar nisso como uma representação da presença dela naquele espaço e também da Lowen, que está tentando ocupar o lugar que antes pertencia à Verity.

Outro detalhe que gostei muito foram as entrevistas da Verity em podcasts. Isso traz uma camada mais contemporânea para a história e permite que a gente conheça um pouco mais da figura pública da autora. É interessante ouvir a própria Verity falando sobre suas obras, seus personagens e seu processo criativo, em vez de termos contato com ela apenas através do manuscrito.

Agora, indo para os pontos que não funcionaram tão bem para mim.

Desde o anúncio do elenco, eu tinha dúvidas sobre Josh Hartnett como Jeremy. Mesmo assim, fui assistir ao filme de coração aberto, tentando não deixar essa impressão inicial interferir. Mas, para mim, ele realmente não funcionou como Jeremy.

E não acho que seja um problema da atuação do Josh Hartnett. Acho que ele está fazendo o trabalho dele. O problema, para mim, foi a escolha de casting. Quando penso no Jeremy do livro, imagino aquele homem com uma aparência muito mais de “bom moço”, alguém que inicialmente nos transmite segurança e que justamente por isso faz com que a virada posterior seja mais impactante.

No filme, eu não tive essa dúvida. Não tive aquele sentimento de “será que ele é realmente quem parece ser?”. Então, para mim, a escalação acabou enfraquecendo justamente uma característica importante do personagem.

Já a Dakota Johnson está bem como Lowen. Gosto da atuação dela, mas senti que faltou alguma coisa na personagem. A Lowen do filme me parece muito mais forte e segura, enquanto no livro eu percebo uma insegurança muito maior nela. Existe uma vulnerabilidade que eu senti falta na versão cinematográfica. Também achei que a Dakota trouxe alguns momentos de humor que não funcionaram para mim dentro desse filme. Inclusive, em algumas cenas, a sala de cinema em que eu estava gargalhou. E não acho que as pessoas estejam erradas por terem achado graça, cada pessoa reage de uma maneira, mas acho que isso diz muito sobre a forma como determinadas cenas e diálogos foram conduzidos. Para mim, Verity não deveria provocar esse tipo de gargalhada em determinados momentos, porque o tom da história pede outra reação.

A Lowen também é uma personagem difícil de gostar, e isso já existe no livro. Mas no livro conseguimos desenvolver uma certa empatia por ela porque temos muito mais acesso aos pensamentos e inseguranças da personagem. No filme, isso se perde um pouco. Também senti falta da dúvida sobre a própria percepção da Lowen. No livro existe mais espaço para questionarmos se ela está realmente vendo determinadas coisas, se está enlouquecendo ou se existe algo acontecendo de fato. No filme, senti que essa camada ficou muito mais fraca.

Outro problema, para mim, foi o Crew, ele é um personagem muito mais presente e macabro. É um menino que consegue causar desconforto, dar sustos e contribuir bastante para aquela atmosfera estranha da casa. No filme, ele ficou muito apagado. Além disso, ele é apresentado quase como uma criança extremamente fofa, e isso não conversa tanto com tudo aquilo que ele viveu. Os traumas do menino são mencionados, mas não são realmente trabalhados. Acho que poderiam ter utilizado muito mais o personagem para construir o lado sombrio da história.

E alguns diálogos também me incomodaram bastante. Em determinados momentos, o texto ficou tão caricato que parecia não caber na boca dos atores. Algumas falas provocaram risadas no cinema justamente porque pareciam deslocadas daquela situação. Para mim, o roteiro escorrega algumas vezes nesse sentido.

No geral, Verity não foi o filme incrível que eu esperava, mas também não considero a pior adaptação que já vi. Ele tem detalhes muito legais, referências interessantes ao livro e algumas cenas extremamente fiéis. Ao mesmo tempo, existem problemas de texto, algumas escolhas de casting e algumas decisões de adaptação que simplesmente não funcionaram para mim.

Se você gosta do livro Verity, eu acho que vale dar uma chance ao filme e tirar sua própria conclusão. E, principalmente, se você nunca leu Verity, eu acho ainda mais interessante assistir, porque acredito que a experiência de quem chega à história sem conhecer a obra original pode ser completamente diferente.

⚠️ A PARTIR DAQUI, SPOILERS DO FILME E DO LIVRO.

Agora, entrando na parte dos spoilers, a cena final foi uma das coisas que mais me incomodaram.

Quando Lowen conta a Jeremy sobre o manuscrito, achei a cena muito morna. Eu esperava uma construção de tensão muito maior. E acho que a trilha sonora poderia ter ajudado bastante nesse momento.

Não sei até que ponto isso é influenciado pelo fato de eu já ter lido o livro e saber exatamente o que vai acontecer. Essa é uma coisa que eu realmente fico curiosa para descobrir ouvindo a opinião de quem não conhece a história. Mas, para mim, simplesmente não funcionou. Eu não fiquei tensa como acho que deveria ter ficado.

Quando acontece a descoberta envolvendo Verity, também achei a reação do Jeremy um pouco sem graça. E, depois, quando ele parte para cima dela e Lowen tenta impedir que ele continue, chegando ao ponto de sugerir uma maneira de matá-la sem que ninguém descubra, senti novamente que faltou emoção. Principalmente por parte da Lowen.

É uma situação extremamente pesada. É um momento que deveria carregar uma tensão enorme, porque estamos falando de uma personagem descobrindo algo perturbador, de uma tentativa de assassinato e de uma decisão que muda completamente o rumo da história. Mas, para mim, a cena não chegou lá, eu não senti o peso que deveria sentir. Não senti aquela tensão, aquele desespero. E acho que esse é um dos momentos em que a direção, o roteiro e a trilha poderiam ter trabalhado muito mais juntos para criar impacto.

E existe uma mudança importante em relação ao livro que, para mim, é uma questão muito mais de preferência pessoal. No livro, temos aquela dúvida que permanece depois do final é o manuscrito ou é a carta? Qual dos dois conta a verdade?

A história deixa uma margem para essa interpretação. Você termina o livro e fica pensando meu Deus, o manuscrito era verdadeiro? A carta era verdadeira? Quem estava mentindo? O filme, para mim, não deixa essa abertura, ele deixa muito mais claro que a carta é a verdade e que o manuscrito foi uma forma de Verity se inspirar para criar sua obra. Ou seja, o filme praticamente entrega a resposta para o espectador, e isso, vai muito de gosto.

Eu, particularmente, ainda prefiro a experiência do livro justamente porque gosto daquela dúvida. Gosto de terminar uma história e continuar pensando sobre ela, tentando decidir em que versão acredito. Mas acho que essa escolha do filme pode funcionar de maneira diferente para cada pessoa.