Pega Essa Dica- Vermiglio – A Noiva da Montanha

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Vermiglio – A Noiva da Montanha, novo longa da diretora Maura Delpero, convida o público a se perder  e ao mesmo tempo se encontrar  no isolamento gelado de uma pequena vila alpina no norte da Itália. Estamos em 1944, nos últimos e exaustos anos da Segunda Guerra Mundial. Mas, enquanto o mundo inteiro parece ruir, Vermiglio segue sua rotina quase intocada, onde as tradições falam mais alto e a guerra parece um eco distante… até que alguém de fora chega para quebrar o silêncio. Esse alguém é Pietro, um jovem soldado siciliano que desertou do exército e busca abrigo na vila.

Ele acaba sendo acolhido pela família de Cesare, o professor local, e é aí que as coisas começam a desmoronar, não por causa da guerra, mas por conta dos sentimentos humanos  sempre mais perigosos do que parecem. Pietro se envolve com Lucia, a filha mais velha do educador, e o romance entre eles vira a faísca que expõe o que estava escondido: preconceitos, ressentimentos e as rachaduras de uma comunidade que parecia sólida. Ao longo de um ano inteiro, acompanhamos o ciclo das estações e, com ele, as mudanças tanto da natureza quanto das relações entre os personagens. O filme mergulha nas dinâmicas familiares e sociais desse microcosmo congelado no tempo, mostrando que, mesmo em meio ao frio e à montanha, os dilemas humanos são universais.

Dentro daquela casa, cada um carrega um peso diferente, mesmo compartilhando o mesmo teto, o mesmo frio, as mesmas regras. Cesare (Tommaso Ragno), o pai, dita o rumo da família com aquela combinação estranha de afeto e autoritarismo. Toca Vivaldi para os filhos como se a música pudesse educar, como se notas afinadas fossem suficientes pra manter todos no caminho que ele já traçou. Decide quem estuda, quem fica, quem vai  sem espaço pra questionamento. Adele (Roberta Rovelli), a mãe, atravessa os dias como quem carrega um luto silencioso. Ela organiza a rotina sem nunca parar, como se parar fosse abrir espaço pra dor. É uma força triste, mas necessária. Ada (Rachele Potrich), a filha do meio, vive presa entre a descoberta do próprio corpo e o peso da culpa. Escreve seus pecados e se pune em segredo, como se o simples ato de desejar fosse imperdoável. Já Flavia (Anna Thaler), a caçula, é a esperança silenciosa da família talvez a única com chance real de escapar pela educação, ou pelo simples fato de ainda olhar o mundo com alguma ingenuidade. E no meio de tudo isso, o filme faz questão de não gritar.

A câmera observa de longe, em planos abertos, como se o espectador fosse mais um morador daquela vila, vendo tudo acontecer sem conseguir interferir. O gesto mais cruel do filme não vem de uma explosão ou de uma grande cena dramática, mas de algo simples e devastador: um boletim escolar, entregue como sentença. Mas, mesmo nesse ambiente rígido, carregado de silêncios e decisões alheias, o olhar das crianças permanece único. Existe algo bonito e ao mesmo tempo triste na forma como elas encaram o mundo, com aquela inocência insistente, quase teimosa, que o filme retrata de forma sutil, sem forçar emoção. Pra mim, é justamente esse contraste entre o peso dos problemas e a pureza com que elas, tão pequenas, enfrentam tudo, que deixa o longa mais bonito e delicado do que aparenta à primeira vista.

Só que o filme nem sempre acerta nesse jogo de distanciamento e sutileza. O excesso de personagens e a fragmentação das tramas acabam diluindo o impacto de algumas figuras que desaparecem antes mesmo de existirem de fato. Virginia (Carlotta Gamba), a vizinha rebelde, some do filme com o mesmo ruído breve com que chegou. Pietro, o soldado, mal fala e quando fala, é quase irrelevante. Attilio (Santiago Fondevilla), nem isso. Alguns rostos parecem pedir um filme que não lhes é dado. Além disso, o ritmo lento, o tempo dilatado e o acúmulo de pequenas histórias paralelas podem facilmente deixar a experiência exaustiva e confusa. Por mais que a atmosfera seja envolvente, há momentos em que fica difícil entender para onde exatamente a história pretende nos levar  ou mesmo se existe um destino traçado para o espectador. Ainda assim, o que permanece ao final é a dureza daquele lugar, o peso das tradições e o desconforto constante que atravessa os personagens. Mas é preciso paciência e disposição para embarcar na proposta que o filme.

O longa não tenta seduzir, não força convencimento, não dramatiza. E, nesse movimento contido, existe um certo rigor mas também um respeito silencioso. Os corpos que habitam esse mundo não foram feitos para o espetáculo, mas para sobreviver, dia após dia, na dureza do que não muda. O filme acompanha esses personagens à distância, sem invadir, sem entregar atalhos. Existe reverência nesse olhar, mas também uma frieza que impede a gente de se aproximar de verdade. Os personagens são interessantes, carregam camadas, conflitos e contradições, mas todos se perdem no meio da multidão. Ninguém ganha o espaço necessário pra existir por completo. A diretora opta por um caminho fragmentado, onde ninguém se torna exatamente o protagonista e as histórias se acumulam sem direção clara. O resultado é um filme que carrega boas intenções, momentos de beleza e uma atmosfera densa mas que, no final das contas, parece disperso demais pra deixar um impacto real. Ainda assim, é impossível ignorar o tom melancólico que atravessa o filme de ponta a ponta, antes de tudo, um retrato triste de uma vila congelada no tempo, de relações quebradas, de tradições que sufocam e de personagens que, mesmo sem espaço, carregam nos olhos o peso de tudo o que não muda.

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