Cloud Nuvem de Vingança é o novo suspense japonês escrito e dirigido por Kiyoshi Kurosawa, conhecido por sua habilidade em explorar o desconforto e o mistério nas relações humanas. Na trama, acompanhamos Ryôsuke Yoshii (interpretado por Masaki Suda), um jovem operário de uma pequena fábrica que, na verdade, dedica-se de corpo e alma a um esquema lucrativo de revenda online. Yoshii comercializa de tudo, de roupas a equipamentos médicos sempre com margens de lucro altíssimas. Quando recebe uma proposta de promoção na fábrica, ele recusa. No lugar de estabilidade, escolhe se mudar para uma casa afastada com sua namorada e mergulhar de vez no negócio paralelo. Mas o que parecia um plano seguro e rentável logo se transformou em um pesadelo. Uma série de acontecimentos misteriosos e ameaçadores começa a rondar a vida do casal. Aos poucos, Yoshii percebe que está sendo caçado e que se envolveu em algo muito maior e mais perigoso do que imaginava, colocando sua vida e a de quem ama em risco.

O diretor escolhe contar essa história de uma maneira propositalmente distante, o público não acompanha os acontecimentos a partir da perspectiva emocional dos personagens, mas sim como um espectador externo, quase frio, observando tudo acontecer de longe. Isso cria uma certa barreira: em nenhum momento nos conectamos de verdade com o protagonista ou com aqueles que buscam vingança contra ele, o misterioso Ratel, nickname que Yoshii usa para aplicar seus esquemas de revenda online. Essa escolha narrativa faz com que o espectador descubra os planos, as intenções e até as motivações dos justiceiros apenas no desenrolar da ação, sem grandes explicações prévias ou aprofundamento emocional. Além disso, o temperamento e a personalidade dos personagens parecem mudar de forma muito abrupta, o que, junto ao ritmo do filme, contribui para uma sensação de estranhamento. Na verdade, tudo em Cloud acontece muito rápido. Situações que claramente exigiriam um tempo maior de construção dramática são resolvidas em poucos minutos, o que deixa a narrativa corrida e, por vezes, superficial. Curiosamente, o início do filme segue o caminho oposto: o ritmo é arrastado, com cenas estendidas que talvez pudessem ser mais enxutas, principalmente se o objetivo fosse investir mais tempo na construção dos “justiceiros” e de suas motivações.
Outro ponto que me incomodou bastante é o quanto tanto o protagonista quanto seus adversários são, no fundo, pouco inteligentes em suas ações. A narrativa tenta nos vender o Yoshii como um grande vendedor, alguém esperto, que lucra alto em seus esquemas online mas, na prática, ele se mostra ingênuo e contraditório. Mesmo sabendo que o que faz beira a ilegalidade, ele não hesita em ir à polícia denunciar um stalker, como se tudo o que ele faz não pudesse também colocá-lo em risco legal.

Do outro lado, os justiceiros que o perseguem também estão longe de parecer grandes vilões ou estrategistas. Eles cometem erros óbvios, tomam decisões impulsivas e, no geral, parecem tão perdidos quanto o próprio Yoshii. Parte deles nem são criminosos de fato, apenas pessoas desesperadas, frustradas com a vida ou com o próprio sistema. E mesmo aquele que deveria representar uma ameaça real um dos justiceiros, foragido e armado também se mostra despreparado. Sua arma é ruim, ele perde tempo em momentos decisivos e, no fundo, não convence como uma figura de perigo iminente.
Até a máscara que aparece no pôster do filme e que à primeira vista parece ser um elemento marcante acaba sendo apenas estética. Ela funciona para criar um susto pontual, mas não carrega um peso simbólico, nem tem um motivo forte para estar ali dentro da trama. Apesar de ser vendido como um suspense, o filme carece justamente do principal: tensão. É difícil sentir o clima de perigo ou o peso da vingança quando os adversários de Yoshii não agem de forma convincente, e quando suas motivações, embora existam, não se traduzem em atitudes que passem real ameaça. O resultado é um suspense que soa apressado, com personagens que parecem perdidos dentro do próprio roteiro, e que, infelizmente, não consegue construir nem o clima, nem a ação que promete.

Falando em personagens mal aproveitados, é impossível não comentar o papel da namorada de Yoshii. Ela está ali, mas sua presença não acrescenta absolutamente nada à trama. Sem ela, a história seguiria exatamente do mesmo jeito. Parece que a personagem foi colocada apenas para cumprir uma “cota”, como se o roteiro precisasse inserir uma figura feminina sem se preocupar em dar a ela função ou profundidade. O mais frustrante é que tentaram justificar sua presença com um suposto problema pessoal, que no final das contas soa forçado e mal construído. Além disso, ela ainda se transforma em uma decepção para o próprio Yoshii como se a narrativa quisesse desviar o foco do real problema dele: sua obsessão descontrolada pelas vendas e pelo lucro fácil. Todas as cenas da namorada são, no mínimo, constrangedoras. Falta propósito, falta coerência e, principalmente, falta respeito com o espaço da personagem dentro da história. No fim, ela não tem função narrativa, não gera empatia e acaba reforçando a sensação de que o roteiro se perdeu nas próprias escolhas.

Não consegui me conectar com o filme. A proposta me atraiu, o tema tem muito potencial e a ideia de misturar suspense, crítica social e um toque de thriller psicológico me chamou atenção. Mas, na prática, a execução não deu. Achei o filme longo demais e arrastado, principalmente considerando que se vende como um suspense com elementos de ação. O ritmo é lento, as cenas se estendem mais do que deveriam, e quando a ação finalmente acontece, ela não convence e perde impacto justamente porque a construção de tensão foi fraca. É aquele típico caso em que o conceito é interessante, mas o resultado final não acompanha a expectativa.
O longa não tenta seduzir, não força convencimento, não dramatiza. E, nesse movimento contido, existe um certo rigor mas também um respeito silencioso. Os corpos que habitam esse mundo não foram feitos para o espetáculo, mas para sobreviver, dia após dia, na dureza do que não muda. O filme acompanha esses personagens à distância, sem invadir, sem entregar atalhos. Existe reverência nesse olhar, mas também uma frieza que impede a gente de se aproximar de verdade. Os personagens são interessantes, carregam camadas, conflitos e contradições, mas todos se perdem no meio da multidão. Ninguém ganha o espaço necessário pra existir por completo. A diretora opta por um caminho fragmentado, onde ninguém se torna exatamente o protagonista e as histórias se acumulam sem direção clara. O resultado é um filme que carrega boas intenções, momentos de beleza e uma atmosfera densa mas que, no final das contas, parece disperso demais pra deixar um impacto real. Ainda assim, é impossível ignorar o tom melancólico que atravessa o filme de ponta a ponta, antes de tudo, um retrato triste de uma vila congelada no tempo, de relações quebradas, de tradições que sufocam e de personagens que, mesmo sem espaço, carregam nos olhos o peso de tudo o que não muda.

