Pega Essa Dica – Wicked: Parte II

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Wicked: Parte II dá continuidade ao capítulo final da história nunca contada das Bruxas de Oz. Separadas pelo destino e pelas consequências de suas escolhas, Elphaba e Glinda agora seguem caminhos opostos. Enquanto Elphaba, marcada como a temida Bruxa Má do Oeste, vive exilada nas sombras da floresta, Glinda desfruta do prestígio e da adoração do povo, erguida como o símbolo máximo da bondade e residente no esplendoroso palácio da Cidade das Esmeraldas. Determinada a restabelecer a paz, Glinda tenta uma reconciliação entre Elphaba e o Mágico, mas seus esforços acabam revelando feridas mais profundas e afastando ainda mais as antigas amigas.

Quando descobri que Wicked: Parte II teria pouco mais de duas horas de duração, minha primeira reação foi de curiosidade o que o diretor colocaria nesse tempo todo, já que a segunda parte do musical original tem pouco mais de quarenta minutos? Mas, para minha surpresa, havia muito a ser dito. Assim como no primeiro filme, nota-se um profundo respeito pelo material original. Desde os primeiros minutos, o longa mergulha no conflito central de Elphaba, que agora está totalmente comprometida com sua missão enfrentar o Mágico, sim, mas, acima de tudo, lutar pela dignidade e liberdade dos animais. Do outro lado, vemos Glinda como o reflexo oposto de Elphaba uma figura idealizada, símbolo da bondade e da alegria, cercada de aplausos e brilho. Ela acredita sinceramente estar fazendo o bem, sem perceber o quanto é manipulada pela Madame Morrible e pelo próprio Mágico. O filme mostra com sutileza como Glinda é usada como instrumento político, uma peça cuidadosamente moldada para reforçar uma narrativa de poder que silencia e distorce a verdade inclusive a de sua amiga.

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Uma diferença muito bem-vinda entre o musical e o filme é a forma como Wicked: Parte II aprofunda o olhar sobre Elphaba. Aqui, ela não é apenas a bruxa injustiçada é uma mulher em luta constante por justiça, resistindo como pode em meio ao exílio. O longa nos permite ver seu esconderijo, o modo como ela sobrevive e encontra força mesmo na solidão. Um dos momentos mais marcantes dessa abordagem é a nova canção “Não Há Lugar Como a Nossa Casa”, composta especialmente para o filme. Nessa cena, Elphaba canta para os animais de Oz, convocando-os à resistência, em um gesto de coragem e compaixão que sintetiza tudo o que ela representa.  Elphaba tem convicções tão firmes que parecem movê-la além de qualquer limite. Essa certeza lhe dá uma força imensa, mas também a isola. Cynthia Erivo, mais uma vez, traduz isso com uma profundidade impressionante sua Elphaba continua mais leve e humana, sem perder o vigor da personagem original. Há um olhar gentil e curioso no modo como ela observa o mundo um mundo que, infelizmente, não devolve o mesmo olhar a ela.

Ariana Grande entrega uma Glinda impecável e não há exagero em dizer que ela realmente incorpora a personagem em cada gesto, sorriso e olhar. No início do filme, sentimos que sua Glinda acredita sinceramente estar fazendo o que é certo, tentando ajudar Elphaba da maneira que conhece. Ainda assim, fica evidente o quanto ela se alimenta da adoração do público ser amada é parte essencial de quem ela é, e abrir mão disso parece um preço alto demais. Essa contradição ganha força na canção “Garota na Bolha”, um dos momentos mais emocionantes de Ariana no filme. A música funciona quase como um desabafo a transição de uma Glinda que vive no mundo cor-de-rosa da positividade para uma mulher que finalmente entende que não é possível ser luz o tempo todo.

É verdade que já se falou muito sobre a química entre Ariana Grande e Cynthia Erivo, mas é impossível não reforçar o quanto elas funcionam bem juntas. A sintonia entre as duas é o coração pulsante do filme. Até mesmo cenas criadas especialmente para o longa e que não existem no musical original servem para ampliar essa conexão, tornando a relação das duas ainda mais profunda e comovente. E é justamente essa união, construída com tanta delicadeza ao longo da narrativa, que torna o desfecho inevitavelmente emocionante. A cena final é o tipo de momento que desarma o público não importa quantas vezes você já tenha ouvido essa história, é impossível não se emocionar quando Glinda e Elphaba se encontram pela última vez duas mulheres transformadas, unidas pelo amor, pela dor e pelo destino.

Além das canções inéditas, Wicked: Parte II traz também reprises e novas versões de músicas já conhecidas do primeiro filme e entre elas, “Wonderful” surge como uma das surpresas mais agradáveis. As músicas do Mágico nunca estiveram entre as mais queridas do público, mas aqui a direção toma uma decisão ousada: a cena é completamente repaginada, ganhando uma nova força dramática. O resultado é tão convincente que, por um breve momento, conseguimos entender por que Elphaba considera fazer um acordo com ele.

Falando no Mágico, é impossível não sentir raiva. Sua atuação é envolvente justamente por isso ele é cínico, manipulador, e cada palavra sua parece cuidadosamente calculada para distorcer a verdade. Há uma cena específica quando Elphaba descobre o que ele realmente fez que é especialmente revoltante. Quem se sensibiliza com as causas dos animais, como eu, certamente vai se indignar junto com ela.

E se é para falar de raiva, não há como deixar de mencionar Madame Morrible. Nesta segunda parte, ela está ainda mais cruel, sem qualquer traço de empatia ou paciência. Sua vilania é escancarada na forma como destrói a imagem de Elphaba e transforma Glinda em um fantoche, manipulando-a com frieza e desprezo. Tanto ela quanto o Mágico estão impecáveis em suas performances mas, como já comentei na crítica do primeiro filme, volto a repetir Michelle Yeoh faz falta nas partes cantadas. Sua presença é poderosa, sua atuação impressiona, mas em um musical, o canto é uma parte vital, e a ausência de sua voz em “Thank Goodness” deixa um vazio perceptível, ela canta de uma forma meio falada.

Por outro lado, Jonathan Bailey simplesmente conquista o coração do público. Se no primeiro filme ele já estava ótimo, aqui ele entrega um Fiyero amadurecido, com ideais claros e um amor profundo por Elphaba. Há uma serenidade e uma intensidade no olhar dele que tornam essa relação ainda mais bonita. A cena de “As Long as You’re Mine” é de uma delicadeza poética o tipo de momento que suspende o tempo, traduzindo em gestos e olhares tudo o que as palavras não conseguem dizer. É romântico, puro e devastador na medida certa.

Outra mudança significativa em Wicked: Parte II está na cena do reencontro entre Elphaba e Nessarose. A adaptação foi necessária por conta da atriz que interpreta Nessa ser cadeirante uma escolha importante em termos de representatividade, e que exigiu uma alteração no roteiro. Ainda que a transição pareça um pouco abrupta em alguns momentos, a essência da cena permanece intacta. Nessa continua sendo a figura autoritária e tirana que conhecemos, movida por ressentimentos e carências, enquanto Boq segue seu arco de frustração e, mais tarde, de fúria. A dinâmica entre eles preserva o mesmo peso emocional e moral da obra original, apenas sob uma nova perspectiva.

Um dos acertos mais notáveis desta segunda parte é a junção entre o universo de Wicked e o clássico O Mágico de Oz. O filme costura as duas narrativas de maneira natural e precisa, conectando pontos com uma fluidez que dá a sensação de completude. As adaptações feitas ao longo da história são sutis, mas extremamente bem pensadas  sempre com o cuidado de respeitar o material original e, ao mesmo tempo, enriquecer a experiência cinematográfica.

Para os fãs do musical, há um prazer especial em reconhecer falas e momentos icônicos da peça, preservados com carinho e reinterpretados para o cinema. É impossível não se emocionar ao ver certas passagens ganhando vida na telona, com a grandiosidade visual e o impacto emocional que só o cinema pode proporcionar.