Zafari é um longa dirigido por Mariana Rondón. Nele conhecemos um pequeno zoológico em Caracas, onde uma família acompanha pela janela a chegada de um novo hipopótamo. O filme se passa em meio a uma crise de alimentos, água e energia elétrica, retratando uma sociedade distópica onde se percebe que apenas o hipopótamo tem comida suficiente.

Ana percorre o prédio decadente antes considerado de luxo em busca de comida nos apartamentos abandonados. A família de Ana é o centro da história e, além dos problemas de sobrevivência e da tentativa de encontrar uma forma de deixar o país, ela começa a ouvir barulhos assustadores que aumentam ainda mais sua tensão. A chegada do hipopótamo, que começa como uma celebração, acaba despertando conflitos entre vizinhos de classes sociais opostas.
O filme utiliza metáforas já conhecidas do público para falar de classes sociais, como os andares mais altos representando os mais ricos e os mais baixos representando quem tem menos dinheiro. Também há a ideia de que os animais são melhor tratados do que as pessoas, uma metáfora que, particularmente, considero fraca. Não gosto muito de histórias que partem dessa comparação de importâncias de vida. Além disso, conforme o filme avança, ele vai ficando confuso e incoerente abre várias histórias e fica pulando de uma para outra sem desenvolver direito, deixando tudo muito preso às metáforas e abandonando um pouco a lógica narrativa. A fome dos personagens passa a guiar quase todas as ações.
Os personagens são frágeis e acabam piorando conforme o filme avança. Mais uma vez a diretora usa a sobrevivência e o instinto como principal motor, colocando os humanos quase como animais que fazem qualquer coisa para sobreviver. Alguns personagens parecem existir apenas para reforçar essa ideia, como a própria Ana. O filme fala muito mais sobre instinto do que sobre a política que levou aquelas pessoas àquela situação.

O longa é cheio de estereótipos e traz um certo tropicalismo, que ajuda como cenário para intensificar o lado mais selvagem de Ana. O problema é que a sátira feroz de Zafari não parece direcionada o suficiente aos poderosos para ser genuinamente divertida ou impactante.
Em si, é um filme parado e cansativo. A fotografia é, na maior parte do tempo, escura; os cenários são degradados dentro de um condomínio que já foi de luxo, reforçando a ideia de abandono. Ao mesmo tempo, as imagens da natureza são muito bonitas, o que cria um contraste interessante. Os diálogos são fracos e, apesar de ter uma mensagem importante, o filme acaba sendo mal executado.
Embora na primeira parte seja possível perceber certa originalidade na abordagem, conforme a história se desenvolve surge uma sensação de opressão misturada com tédio. A tristeza do que se vê em cena acaba se tornando repetitiva. Se o que estamos assistindo realmente acontece, fica a impressão de que o filme quer mostrar que, em situações extremas, os humanos tendem a intimidar e agir apenas pelo instinto.
No fundo, Zafari traz uma crítica interessante sobre como somos incapazes de ter uma visão realmente crítica do que nos rodeia e de construir um futuro compartilhado acabamos temerosos, individualistas e sempre prontos para fugir. Ninguém duvida que isso possa refletir a realidade, mas talvez o problema dessa historia seja justamente a ambição de querer descrever o real enquanto o esconde sob um manto de ficção.
Em resumo, é um filme que tem intenção, tem mensagem e tem imagens fortes, mas não entrega nada realmente novo ao gênero. Ele olha para o presente com pessimismo, mas parece não fazer esforço para imaginar algo melhor e isso deixa a sensação de uma obra com potencial que poderia ter ido muito mais longe.

