Mr. Nobody Contra Putin, dirigido por David Borenstein e Pavel Talankin, acompanha a história de um professor que passa a gravar clandestinamente sua própria sala de aula em uma escola na zona rural da Rússia. O registro acontece justamente no momento em que a invasão da Ucrânia se intensifica e o governo decide militarizar as escolas do país. Com sua missão como educador colocada à prova pelas novas políticas impostas, ele precisa lidar com a despedida de alunos que começam a partir para a guerra. Ao tentar usar seus conhecimentos para orientar os estudantes, o professor percebe que também está sendo alvo de tentativas de manipulação por meio de propagandas oficiais, criadas para moldar o que chega até os jovens.

Assistir a Mr. Nobody Contra Putin é uma experiência profundamente impactante. Para mim, foi um documentário muito forte, daqueles que deixam um peso difícil de ignorar. É assustador perceber que crianças estão sendo preparadas para a guerra dentro de um ambiente que deveria representar exatamente o oposto. O filme expõe algo que soa absurdo, mas que infelizmente é real a militarização da educação e o uso da escola como ferramenta de propaganda política.
Educação e política inevitavelmente se cruzam em alguns momentos, principalmente quando o objetivo é explicar como o mundo funciona. No entanto, o que o documentário mostra vai muito além disso. Não se trata apenas de ensinar sobre política, mas de implementar um regime ideológico dentro das salas de aula. É chocante assistir a essas imagens e perceber como esse processo é normalizado por algumas pessoas ao redor, enquanto outros especialmente os jovens mais velhos demonstram claramente desconforto e oposição ao que está acontecendo.
Nesse cenário, o professor que conduz os registros clandestinos surge como uma figura de resistência. Com poucos recursos e correndo grandes riscos, ele documenta aquilo que se transforma praticamente em uma denúncia. Ao mesmo tempo em que tenta continuar exercendo sua missão como educador, ele registra um sistema que busca moldar os alunos desde cedo para aceitar e apoiar a guerra. Sua decisão de gravar tudo e eventualmente fugir do país revela não apenas coragem, mas também o tamanho do perigo em que ele se encontra.
O que mais impressiona é a forma como a propaganda é incorporada ao cotidiano escolar. As crianças são incentivadas a cantar hinos nacionais agressivos, participam de desfiles com bandeiras e recebem discursos que glorificam a guerra. Há até mesmo organizações que ensinam versões heroicas da invasão da Ucrânia durante aulas de história, preparando os alunos para reproduzir discursos alinhados ao governo. Algumas das imagens mais perturbadoras envolvem treinamentos em que crianças aprendem a manusear equipamentos militares. Elas vestem capacetes, são apresentadas a armas e até participam de atividades simulando o uso de granadas. É impossível não se chocar ao ver esse tipo de cena. A infância desaparece diante da expectativa de que essas crianças se tornem soldados no futuro, absorvendo ideias agressivas e violentas desde muito cedo.

Ao longo do documentário, o cineasta busca se aprofundar nesses registros e refletir sobre o que está acontecendo. Existe também uma dimensão muito forte de identidade no filme tanto a identidade do próprio professor quanto a identidade nacional que o governo tenta impor à força. O professor permanece firme em seus princípios como educador, tentando preservar aquilo que considera a verdadeira função da escola estimular pensamento crítico e oferecer espaço para diálogo.
Essa relação com os alunos aparece em diversos momentos. Muitos deles procuram o professor para conversar, dividir preocupações e refletir sobre o que está acontecendo ao redor. Ele se mostra exatamente aquele tipo de educador que marca a vida dos estudantes alguém próximo, que escuta, que inspira confiança e que continua sendo lembrado mesmo depois que o tempo passa.
O documentário também dedica algum tempo para mostrar a vida pessoal do professor e seus sentimentos diante de tudo isso. Em alguns momentos, seus monólogos podem tornar o ritmo narrativo um pouco mais lento ou até cansativo. Ainda assim, não considero essa escolha um erro. Pelo contrário esses momentos revelam seu ponto de vista e reforçam que aquela história está sendo contada por alguém diretamente afetado por aquela realidade. Ele precisa falar, precisa se posicionar.

No meio de tudo isso, o professor ainda tenta criar pequenos espaços de respiro dentro da sala de aula. Ele usa cores, objetos e elementos criativos para tornar o ambiente mais acolhedor e estimular a imaginação dos alunos. É uma tentativa de preservar o pensamento crítico e a individualidade das crianças, impedindo que elas se tornem apenas reflexos da propaganda estatal. É um esforço silencioso, mas extremamente significativo.
Ainda assim, a sensação que fica é de inquietação. O documentário registra de forma crua a perda da inocência dessas crianças e culmina em um momento particularmente doloroso os alunos mais velhos começam a ser enviados para a guerra. Eles já compreendem a gravidade da situação e demonstram tristeza e preocupação com aquilo que está acontecendo.
Nesse ponto, a escola deixa de ser um porto seguro. Ela passa a funcionar como uma extensão do Estado, um espaço de controle ideológico e preparação militar. Mr. Nobody Contra Putin é um documentário revoltante, triste e profundamente perturbador mas também extremamente necessário. Ele funciona como uma forma de resistência silenciosa, um registro que tenta mostrar ao mundo algo que talvez muitas pessoas preferissem ignorar.

