Pega Essa Dica – Uma Segunda Chance

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Uma Segunda Chance, dirigido por Vanessa Caswill, acompanha a história de Kenna Rowan, uma jovem que, no passado, cometeu um erro que a levou à prisão. Sete anos depois, agora como ex-detenta, ela tenta reconstruir sua vida ao retornar para sua cidade natal. Sem muitas oportunidades, Kenna passa a enfrentar a dura realidade de um mundo marcado pelo preconceito, enquanto tenta se aproximar de sua filha pequena, Diem, que nunca chegou a conhecê-la. Rejeitada constantemente pelos avós da menina, que se recusam a permitir qualquer tipo de aproximação, Kenna se vê cada vez mais isolada em sua tentativa de reconectar-se com a própria filha. Nesse cenário difícil, ela encontra consolo e uma inesperada compaixão em Ledger Ward, um ex-jogador da NFL e dono do bar mais famoso da região. À medida que os dois se aproximam, um romance secreto e intenso começa a se desenvolver, colocando ambos em uma situação delicada. Diante disso, Kenna precisa enfrentar os traumas do passado, aprender a lidar com a culpa e, principalmente, encontrar uma forma de se perdoar permitindo-se viver um amor que talvez seja capaz de curar as feridas mais profundas de um coração partido.

Eu tenho um carinho muito grande por essa história. O livro é, com certeza, uma das minhas histórias favoritas da Colleen Hoover, então quando soube que Uma Segunda Chance ganharia uma adaptação dirigida por Vanessa Caswill, fiquei extremamente ansiosa. Ao mesmo tempo, decidi evitar ao máximo qualquer informação sobre o filme. Não assisti trailer, não procurei cenas, nada. Queria chegar ao cinema tendo a experiência mais pura possível e hoje fico muito feliz de ter feito essa escolha, porque foi uma grata surpresa ver essa história ganhar vida na tela.

Começando pelo elenco, tive aquela sensação gostosa de reconhecer alguns rostos. O ator que interpreta Scott, por exemplo, também viveu o JJ em Outer Banks, um personagem que eu adoro. Além disso, temos a presença de Lauren Graham, eternamente lembrada como Lorelai na série Gilmore Girls, o que foi uma surpresa muito agradável. No geral, o elenco funciona muito bem. Foi uma sensação muito boa olhar para a tela e realmente enxergar os personagens que eu imaginei durante a leitura.

Em relação à adaptação, senti que houve um cuidado muito grande para manter a essência da história. É claro que estamos falando de uma obra que sai do literário para o cinema, então mudanças são inevitáveis. Um livro permite muito mais detalhes, pensamentos e contextos. O filme tem quase duas horas, mas ainda assim não dá para contar tudo. Mesmo assim, achei que o resultado foi muito bem conduzido.

A dor da Kenna, interpretada por Maika Monroe, é muito palpável. Dá para sentir o peso da culpa, do desespero e da tentativa constante de reconstruir a própria vida. Para quem leu o livro, esse impacto emocional talvez seja ainda maior, porque já existe um contexto mais profundo da história. Quem não leu pode sentir que algumas situações aparecem um pouco abruptamente. Um exemplo disso é o momento em que os avós da menina pedem um documento para afastar Kenna da filha. No livro, existem algumas situações que ajudam a construir melhor essa tensão entre eles, enquanto no filme essa decisão pode parecer mais repentina.

Ainda assim, o desenvolvimento da relação entre Kenna e Ledger funciona muito bem. A construção do casal acontece aos poucos, de forma delicada. É muito bonito acompanhar o momento em que ele começa a perceber quem ela realmente é. A dinâmica entre os dois é sensível e cheia de pequenas observações aqueles momentos em que um olha para o outro quando o outro não está vendo, criando uma intimidade silenciosa muito bonita.

Uma diferença que senti em relação ao livro é que Ledger parece um pouco mais compreensivo no filme. Na obra original, ele é mais bruto em alguns momentos, o que gera conflitos mais intensos entre eles. No filme, essa resistência parece desaparecer mais rápido. Entendo que isso também tem relação com o tempo limitado para contar a história, mas talvez um pouco mais de atrito entre eles pudesse ter reforçado ainda mais a construção do relacionamento.

Os flashbacks são outro ponto que funcionam muito bem. Tanto os momentos da Kenna com Scott quanto as lembranças de Ledger com ele ajudam a aprofundar o impacto da perda e a importância que Scott teve na vida de todos. Conhecer mais sobre ele através dessas memórias torna tudo ainda mais emocionante.

Algo que senti falta foi de mais momentos de confronto direto entre Kenna e a família de Scott. No filme, essas interações acabam sendo um pouco mais distantes. Eu gostaria de ter visto mais cenas de conflito, de questionamento e até de defesa da própria Kenna. Mesmo carregando muita culpa, seria interessante ver esses embates de forma mais direta.

Por outro lado, as cenas com a filha são extremamente tocantes. As crianças do filme são ótimas e trazem momentos muito naturais, que equilibram emoção e leveza. As cartas também são muito bonitas e carregadas de sentimento.

Visualmente, o filme também é muito marcante. A fotografia é bonita, os cenários são bem construídos e muitos detalhes parecem ter saído diretamente das páginas do livro. O parquinho feito para Diem, por exemplo, é exatamente como eu havia imaginado durante a leitura. Foi muito especial ver esse tipo de cuidado.

Uma coisa que me chamou atenção foi a forma como os pais de Scott são retratados. No livro, eu sempre tive a sensação de que eles eram injustos em alguns momentos, mas ainda conseguia compreender um pouco da dor deles como pais. No filme, por não termos algumas cenas que ajudam a contextualizar melhor as atitudes deles, essa empatia fica mais difícil. Em alguns momentos, eles parecem apenas radicais e duros demais, especialmente na forma como afastam Kenna completamente da filha desde o nascimento.

A cena do parto na prisão, por exemplo, é muito dura. Ver Kenna dar à luz e logo em seguida ser privada do direito de ficar com a própria filha é devastador. Esse tipo de situação deixa muito claro o quanto a história também fala sobre culpa, consequências e, principalmente, perdão.

No fundo, Uma Segunda Chance é muito mais do que uma história de romance. É uma história sobre perdão em vários níveis o perdão entre pessoas, o perdão entre mães e, talvez o mais difícil de todos, o perdão consigo mesmo. Também existem críticas sutis sobre preconceito contra ex-detentos e sobre como a sociedade reage a pessoas que estão tentando recomeçar.

No geral, é um filme que me emocionou muito. As atuações são ótimas, o casal tem uma química incrível e a história mantém a essência que fez o livro ser tão especial para mim. Claro que existem pequenos pontos que poderiam ter sido aprofundados se o filme fosse um pouco mais longo, especialmente na relação de Kenna com a filha e com a família de Scott. Ainda assim, dentro do que foi possível adaptar, achei que o resultado foi muito digno do material original. Como fã da história, saí muito feliz do cinema. Foi uma adaptação sensível, respeitosa e que conseguiu capturar o coração do livro.