Com estréia para os cinemas brasileiros marcada para o dia 4 de Junho, chega o filme O Bolo do Presidente, já premiado na categoria Camera d’Ór no festival de Cannes 2025. É o primeiro longa-metragem escrito e dirigido pelo iraquiano Hasan Hadi.

O filme acompanha a historia da garota de 9 anos Lamia (Bahen Ahmad Nayyef), durante o período de sanções no Iraque em 1990. Em um país em crise, Lamia é sorteada na escola para fazer um bolo de aniversário em homenagem ao atual presidente Saddam Hussein, que será dividido para sua classe, porém a recusa ou falha nessa ordem do professor será realizada uma punição severa como já foi de exemplo com um aluno lembrado por ele diante da classe.
Lamia tem um fiel amigo de classe Saeed (Sajad Mohamad Qasen), um galo de estimação chamado Hindi e mora na região dos lagos dos Panatanos da Mesopotâmia junto com sua avó Bibi (Waheed Thabet Khreibat), ja adoecida e enfraquecida pela idade decide leva-la à cidade para arranjar os ingredientes para o bolo, e a contragosto acaba revelando que vai deixar a neta aos cuidados de uma familia que ira esconde-la por um tempo.

Lamia foge cidade à fora junto com seu galo Hindi que é carregado de lado em uma bolsa improvisada, depois de um descuido da avó Bibi. Ao acaso de um diálogo no começo do filme ela encontra Saeed em um parque de diversões e os dois vão fazer o possível para arranjar esses dificílimos ingredientes, três ovos, 500 gramas de açúcar e farinha)
Em um Iraque isolado pela guerra que a todo momento se faz lembrada ao espectador, com jatos sobrevoando os céus, bombas explodindo ao longe e o povo unido gritando frases de apoio e fotos de Saddam Hussein por muros, paredes e retratos.
Em pleno dia de Sábado com o aniversário do presidente sendo comemorado pelas ruas, Lamia e Saeed se colocam em situações tanto de leveza da inocência de crianças com uma visão pura do mundo, quanto em situações banais do dia a dia de humanos sobrevivendo em um país onde a injustiça prevalece, em crise e em escassez de alimentação básica para os mais pobres.

O filme se faz belo em sua ambientação, a cinematografia e as atuações nos passam a sensação sufocante de viver em um ambiente árido e com pessoas que mesmo unidas com um propósito político, também vivem separadas cuidando de suas próprias vidas para não serem mal vistas pela maioria defensora do atual regime em que se encontram, isso tudo nos passa uma sensação de isolamento introspectivo e coletivo ao mesmo tempo. A câmera se movimenta na altura das crianças, a maioria dos adultos que não sao importantes se mantém fora de foco ou contra a luz, dando uma sensação de desconhecidos da cidade do ponto de vista infantil, o que me lembrou muito o premiado Cafarnaum (2018).
O longa nos coloca em uma sub-trama adulta, a da busca por Lamia pela sua avó Bibi e o motorista/carteiro Jasim (Rahim AlHaj), que as levou de carona à cidade pela manhã e passa a maioria da tarde em delegacias e em um hospital na busca pela menina e cuidando da avó Bibi doente, esse ponto de vista nos mostra o egoísmo da sociedade iraquiana na época com os problemas uns dos outros e a falta de recursos que as sanções colocaram nas instituições públicas, faltam medicamentos, falta uma força tarefa pra buscas e há mais foco na brutalidade policial em reprimir os mais pobres (Aqui no filme visto como ‘Os camponeses’).

O Bolo do Presidente é um filme que nos faz refletir a condição em que o outro lado da guerra vivia, enquanto vemos filmes como Soldado Anônimo (2005), que assim como O Resgate do Soldado Ryan (1998) é para O Menino do Pijama Listrado (1998).
Nos quais vemos o ponto de vista das reais vítimas de um confronto, não são seus mandantes com ideais de expansão ideológica, nem seus soldados manipulados à defenderem a causa no campo de batalha, o efeito cascata da guerra em sua margem são o sofrimento do povo, inclusive os mais pobres e as crianças que fazem parte da população mais pobre.

