Pega Essa Dica – Honestino

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Sempre que assisto a um documentário ou filme sobre a Ditadura Militar, saio profundamente impactada. É um período da nossa história que, por mais doloroso que seja, precisa continuar sendo lembrado. Honestino, dirigido por Aurélio Micheles, reforça justamente essa importância ao resgatar a trajetória de Honestino Guimarães, líder do movimento estudantil da Universidade de Brasília (UnB), brutalmente assassinado aos 26 anos pela ditadura. O Estado só reconheceu sua responsabilidade décadas depois, mas as marcas deixadas por esse período continuam presentes até hoje.

O documentário busca apresentar Honestino para uma nova geração e faz isso reunindo uma série de materiais de arquivo, entrevistas e cenas dramatizadas protagonizadas por Bruno Gagliasso. Confesso que, antes de assistir, fiquei curiosa com essa escolha. Muitas vezes, dramatizações em documentários acabam soando artificiais ou exageradas, mas aqui acontece justamente o contrário. Elas se integram de maneira muito delicada à narrativa e funcionam como uma extensão das memórias e dos relatos apresentados ao longo do filme.

Bruno Gagliasso entrega uma interpretação extremamente sensível. Honestino também era poeta, e existe uma delicadeza muito bonita na forma como o ator consegue transmitir sua humanidade. Ao mesmo tempo em que vemos a dramatização, também somos apresentados às fotografias e registros reais de Honestino. Essa alternância entre o arquivo histórico e a encenação cria uma conexão muito forte com o personagem, sem que em nenhum momento o documentário perca sua identidade.

Uma das coisas que mais gostei foi justamente a construção da narrativa. O filme não segue uma linha cronológica rígida. As informações vão sendo reveladas aos poucos, voltando no tempo quando necessário, permitindo que o espectador descubra quem era Honestino quase da mesma forma que vai conhecendo qualquer pessoa por suas histórias, pelas lembranças de quem conviveu com ela e pelos acontecimentos que marcaram sua vida.

Eu, por exemplo, não conhecia sua trajetória antes de assistir ao documentário. Ainda assim, terminei a sessão entendendo quem ele foi, o tamanho da sua importância para o movimento estudantil e por que sua ausência ainda é sentida por tantas pessoas. Os depoimentos de familiares, amigos e companheiros de luta ajudam muito nessa construção. Não conhecemos apenas um líder político, mas um ser humano que deixou marcas profundas na vida de quem esteve ao seu lado.

E talvez seja justamente isso que mais emocione. As pessoas falam de Honestino com uma admiração e um carinho muito sinceros. Existe uma emoção muito verdadeira em cada depoimento. Um dos momentos que mais me marcou foi ouvir sua filha. Embora tenha convivido pouquíssimo tempo com o pai, é possível perceber como sua presença continuou existindo através das histórias e da memória preservada por todos ao seu redor.

O documentário também evidencia o quanto Honestino precisou abrir mão da própria vida para defender aquilo em que acreditava. Perseguido constantemente, ele precisou viver escondido, afastar-se da família e abrir mão de momentos que jamais poderia recuperar. Ainda assim, continuou lutando. E o mais interessante é perceber que sua maior arma nunca foi a violência, mas a palavra. Honestino era um líder nato. Convencia pessoas pela inteligência, pelo diálogo e pela capacidade de mobilização. Talvez justamente por isso tenha sido considerado tão perigoso pelo regime.

Outro aspecto que me chamou muita atenção foi o uso dos documentos históricos. Fotografias, registros audiovisuais e imagens de época enriquecem muito a experiência. Em determinado momento, um dos entrevistados comenta que existem poucos registros das reuniões organizadas por Honestino. Por isso, cada fotografia e cada filmagem preservada se tornam documentos preciosos, capazes de manter viva uma parte da nossa história que jamais deveria ser esquecida.

A trilha sonora também merece destaque. Mesmo contando uma história extremamente dolorosa, ela traz elementos muito brasileiros, com influências do samba e de outros ritmos nacionais. Achei uma escolha muito bonita porque transmite algo que o próprio documentário faz questão de mostrar: Honestino era uma pessoa alegre, cheia de esperança e profundamente apaixonada pela vida. A música ajuda a preservar essa imagem dele, impedindo que sua história seja resumida apenas à tragédia.

Naturalmente, o filme desperta muitas reflexões sobre o presente. Não apenas sobre o passado da ditadura, mas sobre a importância da memória, da democracia e da participação da sociedade na defesa dos direitos e das liberdades. Ao revisitar essa história, somos convidados a pensar não apenas no que aconteceu, mas também na responsabilidade de conhecer esse período para que ele nunca seja esquecido.

Honestino é um documentário relativamente curto, com menos de uma hora e meia de duração, mas que passa muito rapidamente. A narrativa prende a atenção do início ao fim e consegue equilibrar informação, emoção e reconstrução histórica de maneira muito eficiente.

Saí da sessão com aquele sentimento amargo que costuma acompanhar obras sobre a Ditadura Militar. Afinal, sabemos que a história de Honestino não teve um final feliz. Mas também saí com a certeza de que sua trajetória merece continuar sendo contada. É um documentário sensível, muito bem construído e, acima de tudo, necessário. Mais do que conhecer a vida de Honestino Guimarães, assisti-lo é lembrar da importância de preservar a memória do nosso país e compreender por que histórias como a dele jamais podem cair no esquecimento.