Pega Essa Dica – Aquele que Viu o Abismo

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Aquele que Viu o Abismo, dirigido por Gregorio Ganani e Negro Leo, acompanha X, um homem que se vê envolvido em uma trama de assassinatos enquanto tenta sobreviver a um sistema extremamente opressor. Em meio a esse cenário, surge a ProLife, uma multinacional que promete algo tão sedutor quanto inquietante a possibilidade da vida eterna. A premissa desperta curiosidade e sugere reflexões interessantes sobre poder, controle e existência, mas, para mim, a execução acabou sendo o maior obstáculo do filme.

Confesso que terminei a sessão com a sensação de não ter conseguido acompanhar plenamente o que estava sendo contado. O filme opta por uma narrativa extremamente fragmentada, jogando imagens, diálogos e informações de maneira pouco conectada. Em diversos momentos, tive a impressão de que ele esperava que o espectador montasse sozinho todas as peças do quebra-cabeça, mas sem oferecer elementos suficientes para isso.

Entendo que essa provavelmente seja uma escolha de linguagem. O longa parece apostar em uma experiência muito mais sensorial do que narrativa, buscando provocar sensações antes mesmo de explicar seus acontecimentos. A questão é que, para mim, essa proposta acabou dificultando a conexão com a história. Em vez de despertar curiosidade, ela gerou um constante sentimento de confusão.

O filme também trabalha com cenas bastante longas, com poucos diálogos e uma narrativa que avança de forma lenta. Em alguns casos, esse tipo de construção pode ser extremamente eficiente, mas aqui senti que ela acabou tornando a experiência cansativa. Apesar de ter apenas cerca de uma hora e dez minutos, tive a sensação de que o filme demorava muito para chegar a qualquer lugar e, quando chegava, ainda deixava muitas perguntas sem resposta.

O que mais me chamou atenção é que existem ideias muito interessantes espalhadas ao longo da obra. Algumas frases têm bastante impacto, e determinados temas mereceriam uma discussão mais aprofundada. O filme parece querer refletir sobre violência, opressão, alienação e sobrevivência dentro de um sistema sufocante. No entanto, senti que essas reflexões ficam perdidas em meio a uma linguagem tão abstrata que acaba dificultando o acesso do espectador ao próprio discurso do longa.

Visualmente, porém, existem momentos bastante interessantes. A fotografia chama atenção em algumas sequências, especialmente no uso das luzes e na composição de determinadas cenas. Há imagens que conseguem transmitir muito bem o desespero vivido pelo protagonista, criando uma atmosfera inquietante, quase como um pesadelo do qual não conseguimos despertar. Talvez esse tenha sido justamente o objetivo dos diretores fazer com que o espectador compartilhe dessa sensação constante de angústia e desconforto.

Ainda assim, para mim, a forma acabou se sobrepondo ao conteúdo. Saí da sessão com a impressão de que o filme se preocupa muito em construir uma experiência conceitual, mas pouco em estabelecer uma comunicação clara com quem está assistindo. Em alguns momentos, tive a sensação de que havia muitas ideias sendo apresentadas, mas poucas realmente desenvolvidas.

Acredito que Aquele que Viu o Abismo possa encontrar um público que aprecie esse tipo de cinema mais experimental, abstrato e sensorial. É uma linguagem que desperta interpretações muito particulares e que certamente pode funcionar para espectadores acostumados com propostas menos convencionais.

No meu caso, porém, a experiência não funcionou. A dificuldade em compreender a narrativa, somada ao ritmo e à fragmentação constante, fez com que eu me distanciasse da história em vez de mergulhar nela. Apesar de reconhecer algumas qualidades visuais e de perceber que existem reflexões importantes por trás da obra, senti que elas acabam sendo ofuscadas por uma construção excessivamente caótica. Infelizmente, foi um filme com o qual não consegui me conectar.