A Queda do Céu, dirigido por Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha, é uma imersão poética e política no universo Yanomami. Inspirado no livro-testemunho homônimo de Davi Kopenawa, em parceria com o antropólogo Bruce Albert, o documentário transpõe para o cinema o poder visionário da palavra xamânica, transformando-a em imagem.

O filme acompanha o ritual fúnebre Reahu, realizado na comunidade de Watorikɨ uma das mais significativas cerimônias do povo Yanomami, onde o luto é partilhado em forma de canto, dança e memória. A câmera de Rocha e Gabriela não se limita a observar; ela participa do tempo da floresta, adere ao ritmo da comunidade e nos convida a vivenciar o cinema como um território de escuta. Entre planos densos de fumaça, vozes e florestas, o filme revela a potência espiritual e política de um povo que, mesmo ameaçado pelo garimpo e pela invasão dos “povos da mercadoria”, mantém viva sua cosmologia e sua capacidade de sonhar o mundo.
É quase impossível assistir a A Queda do Céu sem lembrar dos rostos e das histórias marcadas pelos crimes cometidos contra o povo Yanomami em nome do garimpo. A direção se aproxima dessa ferida sem recorrer à exposição direta as vozes de alerta chegam pelas ondas do rádio, mensagens enviadas a Davi Kopenawa por comunidades vizinhas que denunciam a devastação em curso. Nelas, o horror ganha contornos, rios contaminados, florestas feridas e o impacto imediato sobre a vida Yanomami, especialmente das crianças.
O filme se abre com uma longa sequência em que as pessoas se aproximam lentamente da câmera. A cena se estende por vários minutos, tempo suficiente para que o olhar se canse. Ainda que a intenção seja retratar a peregrinação e o deslocamento coletivo, o excesso de duração faz o interesse diminuir. Por mais que o gesto se encaixe na proposta contemplativa do documentário, essa escolha acaba quebrando o ritmo logo no início. A câmera observa o povo Yanomami e suas tradições à distância, mantendo uma postura próxima à etnografia clássica de Jean Rouch um olhar respeitoso, mas também algo contido e observador.
A forma como o documentário é construído não busca explicar muito. Ele se apresenta de maneira poética, conduzindo o espectador por tradições diferentes das nossas e despertando, ao mesmo tempo, curiosidade e estranhamento. Essa sensação, porém, não vem dos Yanomami, e sim da maneira como são retratados. Há um certo distanciamento que a direção não rompe e, em alguns momentos, até reforça. O filme parece menos interessado em compreender profundamente essas tradições e mais em explorar o poder da câmera de observá-las e compartilhá-las.

Um dos momentos mais interessantes do filme surge no embate entre os diretores e um ancião Yanomami. Esse homem, marcado pelas lembranças da construção de uma estrada na Amazônia nos anos 1970 período em que muitas comunidades foram dizimadas por doenças trazidas pelos trabalhadores, confronta a própria ideia de um cinema etnográfico. Sua fala carrega não apenas a dor da história, mas também uma crítica sobre quem filma, para quem e com que propósito.
No fim, “A Queda do Céu” é mais um documentário que se propõe a registrar uma tradição profunda e fascinante. Compreender a forma como os Yanomami veem o mundo é essencial para enxergarmos com mais clareza a sabedoria dos povos originários e as lutas que ainda enfrentam. A proposta do filme é necessária e poderosa, mas sua execução nem sempre acompanha a força do tema. O ritmo lento e a duração excessiva de algumas cenas tornam a experiência cansativa, mesmo diante da beleza das imagens. Fica a sensação de que o olhar da câmera poderia se aproximar mais das vozes que deseja amplificar.

