Pega Essa Dica – (Des)controle

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(Des)controle, dirigido por Rosane Svartman e Carol Minêm, acompanha Kátia Klein, uma escritora de 45 anos que vive uma profunda crise criativa impulsionada pela pressão do trabalho, da família e das inúmeras responsabilidades que carrega. Em meio a essa rotina caótica, Kátia encontra um alívio momentâneo na bebida, passando de uma taça de vinho ao completo descontrole, mergulhando no alcoolismo.

Quando vi o pôster do filme, minha expectativa era a de uma comédia. Por isso, foi uma surpresa bastante interessante perceber que o longa não tem a comédia como foco. Pelo contrário: ele aborda de forma direta e sensível um tema extremamente importante e comum, o alcoolismo. Acompanhamos uma personagem saturada de responsabilidades que se afunda em um vício quase como um mecanismo de sobrevivência, uma forma de conseguir continuar vivendo, trabalhando e existindo. É um filme que gera identificação justamente pelo estresse constante que Kátia enfrenta algo muito presente na nossa sociedade atual, especialmente quando falamos das mulheres.

Kátia nos é apresentada como uma mulher ocupada, sobrecarregada, sempre dando conta de tudo. Ao mesmo tempo, é uma mulher visivelmente exausta. Para “controlar” um vício, ela acaba recorrendo a outros, como o consumo excessivo de Coca-Cola Light e doces. Todos ao seu redor demonstram preocupação com seu comportamento, mas ela passa a usar o álcool como uma falsa fonte de inspiração para escrever seu novo livro, sem perceber ou se permitindo ignorar  o que está acontecendo à sua volta. Aos poucos, o filme deixa claro que não se trata de falta de força de vontade, mas de uma doença. Algo que não pode simplesmente ser interrompido por decisão própria, como a própria personagem acredita no início.

Gosto muito de como o filme divide essa mesma personagem em duas. Existe a Kátia mãe, filha e profissional, que cuida da família, dos filhos, dos pais, e que muitas vezes não tem escolha a não ser dar conta de tudo. E existe Vânia, seu alter ego quando está bêbada. Essa divisão fica muito clara graças à atuação da Carolina Dieckmann, que consegue diferenciar perfeitamente cada uma delas. Na maior parte do tempo, essa distinção vem pela caracterização, mas há cenas em que conseguimos ver Kátia retomando a consciência, mesmo sem mudanças externas evidentes algo que demonstra um trabalho de atuação muito preciso.

No geral, gosto bastante das escolhas narrativas do filme. Ao observar Kátia no início, a identificação é quase imediata, especialmente para mulheres. No entanto, considero alguns elementos do final desnecessários, soando mais como uma tentativa de chocar o espectador. Para mim, o enfrentamento do alcoolismo por si só já é um tema forte o suficiente, sem precisar adicionar outras camadas tão sensíveis. Gosto muito da escolha de colocá-la como autora de livros infantojuvenis, o que adiciona uma pressão extra: além da cobrança profissional, existe também a expectativa do público consumidor. Soma-se a isso o fato de que, dentro do seu trabalho, a gestão de crises começa a ser substituída por uma IA  algo especialmente delicado quando falamos de arte e criação. Kátia é uma personagem que não se permite ser cuidada, mas sente uma necessidade quase compulsiva de cuidar dos outros. O filme reforça o tempo todo o quanto ela está exausta de absolutamente tudo.

A presença de Vânia como uma espécie de “diabinho” também divide opiniões. Em alguns momentos, esse recurso me parece forçado  como na cena da respiração, enquanto em outros funciona muito bem, como no lançamento do livro. Acredito que o uso desse artifício tenha sido um pouco exagerado ao longo do filme. Ainda assim, há uma cena que considero extremamente forte e impactante: quando Kátia está bêbada e vários homens tentam colocá-la dentro de um carro. É uma sequência desesperadora de assistir, especialmente para mulheres. A forma como ela foi filmada faz com que o espectador sinta o pânico da personagem de maneira quase física.

Carolina Dieckmann está impecável. Ela transmite com muita verdade a dor, o desespero e a confusão mental dessa mulher em colapso. Também faço um elogio especial ao ator que interpreta o filho mais velho de Kátia. A relação entre os dois é muito bem construída, e a química em cena torna ainda mais doloroso acompanhar aquela criança lidando com a situação da mãe. No geral, todo o elenco funciona muito bem. O pai de Vânia surge como um leve alívio cômico, o que ajuda a suavizar o peso do tema sem desrespeitá-lo. A presença dos pais de Kátia é fundamental, e o diálogo final com eles é especialmente bonito. É um texto sensível que nos faz refletir sobre o privilégio de ter pais presentes para nos apoiar em momentos difíceis. Olhamos para Kátia, que aparentemente tem tudo, e percebemos que, ao mesmo tempo, ela sente que não tem nada.

Visualmente, o filme é muito bem construído. Gosto bastante do uso das cores e da fotografia, que é extremamente intencional. Em cerca de 80% das cenas, há um copo ou uma taça próximos de Kátia  muitas vezes como um detalhe quase invisível, mas sempre presente. O figurino também contribui muito para a narrativa emocional: Kátia aparece com mais cor e leveza, enquanto Vânia surge de forma glamourosa, porém carregada, sempre com peças pesadas, sejam acessórios ou paetês.

A mensagem final do filme é clara: não basta que a pessoa alcoólatra queira parar. É necessário tratamento. Não existe recuperação solitária. O filme mostra os estragos que o alcoolismo causa na família, nas amizades e na própria vida da pessoa, com consequências muitas vezes irreparáveis. (Des)controle funciona quase como um alerta e, ao mesmo tempo, como um espaço de reflexão para entendermos que o alcoolismo é, sim, uma doença.

No geral, gostei bastante do filme. Ele me surpreendeu positivamente, traz uma discussão urgente e importantes reviravoltas ao longo da história. Há momentos em que acredito que o tom pende para o exagero, mas, ainda assim, considero um ótimo filme de alerta e reflexão. Vale o aviso de que ele pode, sim, despertar gatilhos em algumas pessoas.