No filme Garotas Só Querem Vingança (também conhecido pelo título original Find Your Friends), uma viagem de férias entre amigas se transforma em uma violenta luta pela sobrevivência no deserto. O filme é estrelado por Bella Thorne, Zión Moreno, Helena Howard, Chloe Cherry e Sophia Taylor Ali no elenco princial e a direção fica por conta de Izabel Pakzad. O longa estreou no Brasil em 1 de outubro de 2026, com exclusividade na plataforma de streaming Filmelier+.
A trama conta a história de Amber e quatro amigas que viajam rumo a uma cidade isolada no deserto da Califórnia em busca de diversão, festas e momentos de descontração. No entanto, o clima de excessos e comemoração muda completamente após um confronto tenso com moradores locais hostis. O que era para ser um passeio divertido rapidamente sai do controle, transformando-se em um pesadelo e em uma luta implacável por sobrevivência e controle

Um dos principais problemas de Garotas Só Querem Vingança está na construção de seus personagens, que carecem de um desenvolvimento mais profundo. As protagonistas acabam sendo retratadas de maneira bastante superficial e estereotipada, como garotas festeiras cujas vidas parecem girar em torno de festas, diversão, sexo e drogas. Em determinado momento, o filme até tenta mostrar que existe algo além dessa imagem: descobrimos que as amigas estão se formando na faculdade e possuem sonhos, ambições e perspectivas para o futuro. É uma breve oportunidade de enxergá-las sob outra perspectiva, mas que acaba sendo desperdiçada quando a narrativa retorna à mesma dinâmica de excessos e diversão, sem explorar de fato as diferentes personalidades e os conflitos internos de cada uma.
Outro problema está nas escolhas do roteiro, que parte de uma premissa com potencial para construir uma história provocativa e diferente, mas toma decisões que comprometem o desenvolvimento da trama. Um dos exemplos mais evidentes é a dificuldade de comunicação entre as personagens. Logo no início, Amber passa por uma situação séria e revoltante, mas prefere não contar às amigas o que aconteceu. Em vez de compartilhar sua experiência, ela recorre à bebida, até que acaba tendo um surto sem explicar o motivo. Sem compreender o que está acontecendo, as outras garotas começam a enxergá-la como alguém inconveniente e desagradável. É uma dinâmica que poderia render discussões interessantes sobre trauma, acolhimento e a importância de ouvir umas às outras, mas o filme não aprofunda essas questões como deveria.
Essa falta de desenvolvimento também prejudica a maneira como o conflito central ganha força. Depois que Lola conhece alguns homens em uma festa e acaba se afastando deles, os rapazes ficam irritados e passam a perseguir as garotas. A situação abre espaço para uma mudança significativa no tom da narrativa, especialmente porque toca em uma questão importante: a dificuldade que muitos homens têm de aceitar a rejeição e respeitar os limites das mulheres. No entanto, o roteiro demora demais para transformar esse conflito no verdadeiro motor da história. A tensão se arrasta, enquanto algumas situações parecem se repetir sem acrescentar muito à narrativa, e a tão esperada virada só começa a ganhar força nos últimos 12 minutos. Para completar, há personagens que simplesmente desaparecem ao longo do filme, sem que suas trajetórias recebam uma conclusão satisfatória.

Apesar desses problemas, o longa apresenta uma proposta temática relevante ao abordar a violência de gênero e a ideia de que alguns homens ainda acreditam ter o direito de ultrapassar os limites de uma mulher simplesmente porque foram rejeitados. A questão é que o filme parece ter mais clareza sobre aquilo que deseja discutir do que sobre a maneira de desenvolver essa discussão. A falta de comunicação entre as protagonistas, a superficialidade de algumas relações e a demora para estabelecer as consequências das atitudes dos antagonistas enfraquecem uma mensagem que poderia ser muito mais impactante. Faltou explorar melhor as motivações das personagens, construir uma escalada de tensão mais consistente e fazer com que a transformação da história parecesse inevitável, em vez de surgir quase no fim.
Por outro lado, mesmo com as fragilidades do roteiro, as protagonistas conseguem entregar boas atuações e são responsáveis por boa parte do envolvimento emocional com a história. Existe carisma na maneira como elas interpretam essas jovens, tornando-as figuras com as quais é possível criar certa conexão, mesmo quando a escrita não oferece profundidade suficiente para suas personagens. Outro grande destaque é a fotografia, que é belíssima e valoriza os cenários, criando composições visualmente atraentes e uma atmosfera que contribui para a identidade do filme. É um trabalho visual que demonstra cuidado e ajuda a manter o interesse mesmo nos momentos em que a narrativa perde o ritmo.
E, quando finalmente chega a hora da vingança, fica a sensação de que o filme poderia ter ido muito além. A proposta tem potencial, e a maneira como a retaliação acontece traz elementos interessantes, mas o resultado não alcança o impacto que a construção da história parecia prometer. Não é necessariamente uma questão de tornar tudo mais chocante, e sim de desenvolver melhor a tensão, dar mais peso às escolhas das protagonistas e fazer com que o desfecho tenha consequências emocionais mais significativas.

A vingança demora tanto para se concretizar que, quando finalmente acontece, a sensação é de que faltou uma mudança mais contundente de direção, aquele momento em que a narrativa abandona de vez a superficialidade inicial e abraça todas as possibilidades de sua premissa.
Garotas Só Querem Vingança tem uma ideia interessante, um elenco carismático e uma fotografia marcante, mas acaba preso a um roteiro irregular, que parece hesitar entre ser um retrato descompromissado da juventude e um suspense sobre violência, consentimento e vingança. No fim, fica a impressão de que havia uma história muito mais potente esperando para ser contada.

