Pega Essa Dica – Mambembe

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Mambembe , dirigido por Fábio Meira, parte de uma proposta bastante incomum transformar uma filmagem interrompida em um novo longa que mistura ficção, documentário, making-of e reflexão sobre o próprio processo artístico. O filme acompanha um topógrafo personagem inspirado no pai do cineasta que cruza diferentes estados brasileiros e encontra três mulheres ligadas ao universo circense. A partir dessas figuras, o longa busca discutir não apenas a construção de um filme, mas também as transformações do tempo, da arte e das próprias pessoas envolvidas naquele projeto inicial.

O ponto de partida é interessante justamente porque Mambembe não tenta esconder suas interrupções ou falhas de continuidade. Pelo contrário o diretor transforma as lacunas da produção original em parte da narrativa. Anos depois do início das filmagens, ele retorna a esse material gravado em 2010 e percebe que não seria possível simplesmente finalizar o projeto da mesma maneira. As percepções sobre gênero mudaram, os próprios artistas mudaram. Dessa forma, o longa passa a existir quase como uma investigação sobre o que acontece com um filme interrompido pelo tempo.

Existe algo muito potente na ideia central do projeto. O reencontro desses artistas com suas próprias imagens de mais de uma década atrás acaba sendo, talvez, o aspecto mais interessante do longa. Ver essas pessoas observando versões passadas de si mesmas, comentando suas trajetórias, suas dores, suas mudanças e suas memórias cria momentos genuinamente emocionantes. Há uma sensação constante de passagem do tempo que atravessa todo o filme.

Além disso, Mambembe também chama atenção por abordar o universo do circo no Brasil de uma forma pouco romantizada. O longa não tenta transformar a arte circense em algo mágico ou idealizado. Pelo contrário ele mostra as dificuldades, as precariedades e as condições muitas vezes invisíveis que acompanham esses artistas. 

O problema, porém, está justamente na forma como tudo isso é construído. Embora a proposta experimental faça sentido dentro da ideia do projeto, o filme acaba se tornando excessivamente fragmentado. A mistura entre ficção, entrevistas, retomada documental, bastidores e reflexões metalinguísticas cria uma experiência bastante quebrada narrativamente.

Em vários momentos, o longa parece mais interessado em discutir o processo de fazer cinema do que em permitir que o espectador mergulhe verdadeiramente na história. Quando as cenas ficcionais finalmente começam a criar algum envolvimento, elas são interrompidas por comentários sobre produção, dificuldades de filmagem ou reflexões externas que quebram completamente a imersão.

Essa escolha claramente é intencional. O diretor estabelece uma distância entre público e narrativa o tempo inteiro, quase impedindo que o espectador esqueça que está vendo um projeto em construção. Porém, apesar da coerência artística dessa decisão, a experiência acaba se tornando cansativa em muitos momentos.

A sensação constante é de assistir a fragmentos de ideias que nunca conseguem se organizar completamente em uma narrativa fluida. Existe valor conceitual nessa estrutura quebrada, mas emocionalmente o filme acaba perdendo força justamente por dificultar o envolvimento do público.

Mesmo não funcionando totalmente como experiência cinematográfica para todos os espectadores, o projeto possui relevância justamente por registrar essas vidas, essas memórias e essas interrupções. Há algo muito verdadeiro na maneira como o filme lida com a passagem do tempo e com a impossibilidade de retornar exatamente ao que existia antes.

No fim, Mambembe é um filme mais interessante em sua proposta do que necessariamente em sua execução. A ideia de revisitar uma obra interrompida e transformá-la em reflexão sobre arte e memória é extremamente rica, mas a estrutura excessivamente fragmentada acaba tornando a experiência confusa e, em alguns momentos, distante emocionalmente.