Tinha tudo para ser um bom filme.
Love Kills tenta transformar o centro de São Paulo em palco para um romance sombrio entre vampiros, violência urbana e crítica social. O filme realmente chama atenção pela ambição estética, trazendo uma fotografia neon carregada de tons góticos, uma direção de arte interessante e uma atmosfera decadente que combina muito com a proposta. A trilha sonora e o design de som também ajudam na imersão, apesar de em alguns momentos o áudio ficar exageradamente alto, chegando a incomodar mais do que envolver.

Na história, Helena, uma vampira misteriosa que vive escondida no centro de São Paulo, acaba se envolvendo com Marcos, um jovem garçom inocente. Aos poucos, ele é arrastado para um submundo violento dominado por vampiros e disputas sobrenaturais nas noites da cidade.
Mas infelizmente a produção desmorona justamente naquilo que mais precisava funcionar: roteiro e coerência.
A narrativa é extremamente confusa, cheia de situações sem lógica, personagens que aparecem e desaparecem sem qualquer explicação e acontecimentos que parecem jogados apenas para criar impacto visual. Em vários momentos o filme parece perdido dentro das próprias ideias, sem saber exatamente se quer ser romance, terror, fantasia urbana ou crítica social.

Além disso, os erros de continuidade são gritantes. Algumas tomadas claramente são reutilizadas em cenas diferentes, o que acaba passando uma sensação de descuido na montagem. E mesmo com uma produção grande, certos detalhes quebram completamente a atmosfera. Um exemplo é a vampira morar em um dos antigos bancos mais famosos de São Paulo e a câmera simplesmente deixar visível no chão as iniciais “BSP”. Ao invés de fortalecer o universo do filme, parece que ela literalmente mora no Banco de São Paulo.
Outro ponto difícil de engolir é a própria construção da personagem principal. A vampira supostamente é mais velha que a cidade de São Paulo, mas em determinado momento age como alguém que nunca ouviu falar da Cracolândia. São pequenas incoerências que vão acumulando e tirando totalmente a credibilidade da história.
E as regras dos vampiros simplesmente não fazem sentido. A protagonista uma hora parece uma mutante de X-Men, com força absurda e recuperação instantânea, e na cena seguinte precisa ser carregada ou salva por um humano comum. O filme nunca estabelece limites ou lógica para os poderes dela.

Os próprios vampiros parecem muito mais lutadores de artes marciais do que criaturas sobrenaturais. Em várias cenas de ação, o longa abandona qualquer clima de horror para virar quase um filme de combate estilizado. E as referências ficam tão evidentes que acabam distraindo. Existe um grupo de vampiros que lembra nitidamente os Volturi de Crepúsculo, tanto na estética quanto no comportamento. Já um outro personagem parece tão inspirado no Aro que só faltou o roteiro revelar que ele era filho ou irmão mais novo do personagem.
O protagonista humano também sofre com decisões estranhas de roteiro. Tem cena em que ele apanha brutalmente de uma vampira e levanta segundos depois como se nada tivesse acontecido. E existe ainda um detalhe curioso que acaba distraindo involuntariamente: ele parece passar mais de dez dias em São Paulo usando exatamente a mesma roupa, sem tomar um banho sequer, enquanto a vampira troca de figurino constantemente. Parece um erro básico de continuidade e caracterização.
Outra coisa que incomoda é o próprio título do filme. Se é uma produção nacional, ambientada no Brasil, com identidade tão ligada a São Paulo, por que usar um nome totalmente em inglês? Love Kills parece mais um título genérico de streaming internacional do que um filme brasileiro. O cinema nacional precisa valorizar mais a própria língua e parar de americanizar tudo aquilo que já funciona perfeitamente dentro da nossa cultura.

Love Kills claramente tem inspiração em várias obras, mas acaba parecendo uma mistura de Crepúsculo, Anjos da Noite, Nosferatu e até Os Mutantes da Record. O problema é que o filme nunca encontra uma identidade própria no meio dessas referências.
Mesmo com todos esses problemas, por ser um filme independente, Love Kills merece reconhecimento pelo esforço e pela ambição da produção. Existe dedicação visível na construção visual do longa, e as atuações funcionam bem na maior parte do tempo. Não é um filme totalmente ruim, e o elenco consegue sustentar vários momentos mesmo quando o roteiro tropeça. Tirando os “Volturi da Shopee”, existe um potencial interessante aqui que talvez funcione melhor em futuros projetos.


