Lizzie Borden não é uma santa e ponto final.
Ryan Murphy tem uma mania muito feia de começar algo muito bom e, com o passar dos episódios, acabar deixando muita coisa pelo caminho. Ainda assim, Monstro: A História de Lizzie Borden, quarta parte da série Monstro, consegue ser melhor que a terceira temporada e resgata um dos casos criminais mais conhecidos da história dos Estados Unidos, transformando uma história cercada de mistérios, versões conflitantes e perguntas sem respostas em uma produção que vai muito além do crime que colocou Lizzie Borden no centro das atenções. Criada e roteirizada por Ian Brennan, a temporada tem direção principalmente de Max Winkler, com Sarah Adina Smith também comandando episódios.

A trama acompanha Lizzie Borden, acusada de assassinar o pai e a madrasta em 1892. Após sua prisão e um julgamento que chamou a atenção do país, Lizzie foi absolvida, mas o caso permaneceu cercado de dúvidas. A série também apresenta Aileen, personagem que estabelece uma conexão com Lizzie ao longo da narrativa. Essa relação é uma criação da série e não corresponde a uma ligação conhecida entre as duas na vida real.
E é justamente aqui que a produção exige atenção do público. Apesar de ser baseada em um caso real, Monstro toma diversas liberdades narrativas e apresenta acontecimentos e relações que não possuem comprovação histórica. A série mistura fatos documentados com elementos criados para a dramatização, o que pode funcionar para construir uma narrativa mais envolvente, mas também pode dar a impressão de que determinadas situações realmente aconteceram. Por isso, é importante separar o que sabemos sobre Lizzie Borden daquilo que a série escolheu imaginar.
Outro ponto que merece destaque é a maneira como a personagem é construída. A produção apresenta diferentes possibilidades e explora as contradições de Lizzie, mas em alguns momentos existe o risco de transformar uma mulher acusada de um crime brutal em uma figura excessivamente romantizada. Lizzie não foi uma santa e também não deve ser reduzida à imagem de uma simples vítima das circunstâncias. Sua absolvição no julgamento não significa que sua inocência tenha sido comprovada de forma definitiva. O caso continua sem uma resposta conclusiva sobre quem matou Andrew e Abby Borden, e justamente por isso é importante não transformar a personagem em uma heroína ou em uma coitadinha apenas porque foi absolvida.

A série funciona melhor quando mantém essa ambiguidade e permite que o público questione as diferentes versões dos acontecimentos. Quando tenta preencher as lacunas da história com elementos ficcionais, porém, acaba ultrapassando a linha entre explorar uma possibilidade e apresentar uma versão dramatizada como se fosse parte da realidade.
O elenco também merece destaque. As atuações ajudam a construir uma atmosfera pesada e desconfortável, especialmente nos momentos em que a produção mergulha na dinâmica familiar e nas tensões que antecedem e sucedem os assassinatos. Ella Beatty se destaca na construção de Lizzie, justamente por conseguir trabalhar as diferentes camadas de uma personagem que permanece cercada de dúvidas. Rebecca Hall e Sarah Paulson também contribuem para o peso dramático da temporada.
A direção de arte, os figurinos e a fotografia contribuem bastante para recriar o período histórico e dão à série uma identidade visual muito bem construída. É uma produção que sabe utilizar seus cenários e sua estética para criar uma atmosfera sombria, mesmo quando a narrativa acaba exagerando em alguns momentos.

A presença de Aileen é outro elemento interessante. Apesar de a conexão entre as duas ser completamente ficcional, a personagem funciona dentro da proposta da temporada e abre espaço para uma história própria. Ao mesmo tempo, essa escolha pode tirar um pouco do foco do caso de Lizzie e reforça a sensação de que a série está mais interessada em construir sua própria narrativa do que em fazer uma reprodução fiel dos acontecimentos históricos.
Por outro lado, a temporada poderia ser mais enxuta. Com oito episódios, alguns momentos acabam se estendendo mais do que deveriam, principalmente quando a narrativa retorna a determinadas situações ou desacelera para desenvolver aspectos que poderiam ser trabalhados de maneira mais objetiva. A sensação é de que alguns episódios poderiam ter uma duração menor sem prejudicar a história.

Ainda assim, Monstro: A História de Lizzie Borden consegue transformar um caso histórico já bastante conhecido em uma narrativa envolvente, equilibrando elementos de crime, drama e suspense. A produção acerta principalmente quando mantém o mistério e permite que o público tire suas próprias conclusões, mas perde força quando toma tantas liberdades que fica difícil separar o que realmente aconteceu daquilo que foi criado para a televisão.
No fim, a série é interessante não porque entrega uma resposta definitiva sobre Lizzie Borden, mas porque mostra por que esse caso continua despertando curiosidade mais de um século depois. Só é preciso assistir com o entendimento de que estamos diante de uma dramatização, e não de um retrato fiel dos acontecimentos. E, principalmente, sem transformar uma mulher acusada de um crime brutal em uma figura romantizada ou em uma vítima inocente que a história nunca conseguiu comprovar que ela fosse.

