Pega Essa Dica – No Rastro do Perigo

cinema Crítica Cinema filme Pega Essa Dica Pega Essa Novidade

No Rastro do Perigo, dirigido por Michael Jai White, parte de uma premissa que tinha potencial para render um suspense de ação envolvente um ex-policial que agora trabalha como investigador particular precisa encontrar uma estrela do R&B desaparecida em Atlanta, enquanto acaba entrando em uma conspiração muito maior do que imaginava. O problema é que, apesar das boas ideias e de alguns momentos genuinamente divertidos, o filme tropeça em praticamente todos os elementos necessários para sustentar essa proposta.

O que mais funciona aqui, sem dúvidas, é o clima mais leve que o longa tenta construir. Mesmo sendo um filme de ação, ele aposta bastante no humor e, sinceramente, muitas dessas piadas funcionam. Existe uma dinâmica descontraída entre os personagens e algumas interações conseguem arrancar risadas genuínas, principalmente porque o elenco tem carisma. Inclusive, esse talvez seja um dos maiores acertos do filme a escalação dos atores. Em sua maioria, são nomes mais experientes, com presença de tela e uma energia divertida que ajuda a manter o espectador minimamente entretido mesmo quando o roteiro começa a desandar. Porque infelizmente desanda e rápido.

As atuações entram em um território muito mediano. Não chegam a ser ruins a ponto de comprometer completamente o filme, mas também nunca convencem de verdade. Existe um tom meio exagerado, quase caricato em alguns momentos, que parece vir muito mais de uma escolha de direção do que necessariamente do elenco em si. O problema é que o filme nunca encontra equilíbrio entre o humor e a tensão. Em vez de parecer um filme de ação divertido e estilizado, em vários momentos ele acaba caindo para algo quase pastelão sem intenção.

O roteiro é, de longe, a parte mais fraca do longa. A história começa até interessante, trazendo essa investigação envolvendo uma cantora famosa sequestrada, algo que poderia render uma trama cheia de tensão, reviravoltas e adrenalina. Só que a narrativa vai se perdendo conforme avança. O filme começa a introduzir personagens aleatórios, conflitos que surgem do nada e subtramas que simplesmente não recebem desenvolvimento. São várias ramificações que parecem querer deixar a trama mais complexa, mas acabam apenas deixando tudo confuso. Falta clareza narrativa. Falta construção. E principalmente falta refinamento. Dá a sensação de um roteiro que precisava passar por mais revisões antes de chegar à versão final.

Ainda assim, as cenas de luta conseguem funcionar melhor do que o restante do filme. As coreografias são interessantes, existe uma boa energia nas sequências de ação e dá para perceber o esforço em construir momentos impactantes fisicamente. Algumas lutas realmente entretêm. Porém, até nisso o filme tropeça em certos momentos. Existem personagens secundários principalmente alguns seguranças que executam movimentos tão exagerados e artificiais que acabam gerando mais vergonha alheia do que tensão.

A montagem também prejudica bastante a experiência. Os cortes são abruptos demais e frequentemente quebram o ritmo das cenas de ação, impedindo que aquela sensação de adrenalina realmente se estabeleça. O filme claramente quer criar impacto, mas a edição acaba sabotando isso o tempo inteiro.

Agora, o ponto mais complicado do longa é, sem dúvida, o CGI. Os efeitos visuais são extremamente mal acabados. E não é aquele tipo de efeito “simples”, mas aceitável dentro de um orçamento menor. Em muitos momentos, o CGI realmente compromete a imersão da cena. Os recortes são visíveis, os efeitos têm aparência artificial demais e algumas escolhas visuais chegam a ficar visualmente grosseiras. A luta final, por exemplo, exagera tanto no uso de computação gráfica que a sequência perde completamente qualquer peso dramático ou impacto. Em vez de impressionar, ela acaba ficando involuntariamente engraçada.

Os problemas técnicos e narrativos são grandes demais para ignorar. O roteiro fraco, a edição confusa e principalmente os efeitos visuais muito mal executados impedem que o filme alcance algo além de uma diversão passageira.

No final, é aquele tipo de filme que até consegue entreter por uma hora e meia se você entrar na proposta sem esperar muito, mas que deixa uma sensação constante de potencial desperdiçado.