Pega Essa Dica – Parthenope: Os Amores de Nápoles

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Dirigido por Paolo Sorrentino, Parthenope: Os Amores de Nápoles acompanha a trajetória de uma jovem marcada por sua beleza, seu poder de sedução e pela forma como atravessa a vida das pessoas ao seu redor. Interpretada por Celeste Dalla Porta, Parthenope carrega no próprio nome a referência à figura mitológica que dá origem à cidade de Nápoles uma espécie de sereia moderna que encanta, provoca e transforma. A narrativa começa na década de 1950, com o nascimento da personagem no mar, em uma clara conexão simbólica com essa origem mítica. Desde o início, o filme estabelece o contexto de privilégio em que ela está inserida uma família extremamente rica, cercada por luxo e excessos, o que molda não apenas seu estilo de vida, mas também a forma como ela se relaciona com o mundo. A história então avança para 1968, quando Parthenope, aos 18 anos, já tem plena consciência de sua beleza e do impacto que exerce sobre os outros, algo que o filme evidencia constantemente por meio de olhares, gestos e da maneira como ela é observada.

Esse olhar, aliás, é central na construção da personagem. Sorrentino filma Parthenope quase como uma escultura, uma obra de arte viva. Sua imagem é constantemente idealizada, colocada em uma posição quase celestial, como se fosse intocável. Há uma estetização evidente do corpo e da presença da protagonista, que não apenas seduz os personagens ao seu redor, mas também o próprio espectador. É um filme que fala sobre beleza, desejo e fascínio, mas faz isso de maneira profundamente contemplativa.

Ao mesmo tempo, a narrativa mergulha em relações complexas e desconfortáveis, incluindo uma dinâmica incestuosa entre Parthenope e seu irmão, além de outros vínculos marcados por desejo, obsessão e transgressão. Esses elementos tornam a experiência, em muitos momentos, incômoda não apenas pelo tema em si, mas pela forma como são apresentados, frequentemente com uma carga de sexualização que pode soar excessiva e, em alguns casos, desnecessária.

Visualmente, o filme é inegavelmente deslumbrante. A fotografia explora as paisagens de Nápoles com uma sensibilidade que enche os olhos, criando imagens que parecem pinturas. Nesse sentido, é um filme que impressiona pela forma, ainda que o conteúdo não acompanhe com a mesma força.

A narrativa, no entanto, pode se tornar um desafio. Com uma estrutura que flerta com o surrealismo, o filme por vezes parece se perder em sua própria proposta, apresentando situações que surgem de maneira abrupta ou que beiram o bizarro. Há momentos de difícil assimilação, incluindo cenas que podem causar estranhamento ou até repulsa, especialmente na segunda metade. Essa abordagem exige do espectador uma dose considerável de paciência algo que pode não ser recompensado para todos.

Além disso, a duração se torna um ponto sensível. O filme se estende mais do que o necessário, o que acaba impactando o ritmo e contribuindo para uma sensação de desgaste ao longo da exibição. Certas ideias e diálogos são repetidos de forma insistente, como a constante afirmação de que a protagonista sempre tem uma resposta pronta, o que acaba soando redundante e pouco acrescenta ao desenvolvimento da narrativa.

Ainda assim, há elementos interessantes ao longo do caminho. O envolvimento de Parthenope com a antropologia traz uma camada que poderia ter sido mais explorada, sugerindo um possível aprofundamento na construção da personagem para além de sua aparência e poder de sedução. Esses momentos apontam para um filme que poderia ter seguido por caminhos mais ricos, mas que opta por permanecer em uma abordagem mais estética e simbólica.

As atuações, por outro lado, são consistentes. Celeste Dalla Porta entrega uma performance alinhada à proposta do filme, conseguindo transmitir a complexidade e as contradições da personagem. O restante do elenco também cumpre bem seus papéis, sustentando a atmosfera proposta pela direção.

No fim, Parthenope: Os Amores de Nápoles é um filme que encanta pela estética, mas que pode não envolver emocionalmente. Sua beleza é inegável, assim como sua ambição artística, mas a narrativa fragmentada, o excesso de duração e algumas escolhas questionáveis afastam o espectador de uma conexão mais profunda.