Pega Essa Dica – O Gatola da Cartola (2026)

cinema Crítica Cinema filme Pega Essa Dica Pega Essa Novidade

O Gatola da Cartola (2026) resgata a imaginação para uma nova geração

Em uma era do cinema em que a nostalgia continua sendo uma aposta segura para os grandes estúdios, nem mesmo as animações escapam desse ciclo. Clássicos, personagens e histórias são revisitados, muitas vezes sem o devido cuidado em acrescentar algo novo ao imaginário dessas franquias. Em 2025, tivemos ‘Os Smurfs’, da Paramount, um filme que parecia acreditar que reunir o maior número possível de celebridades seria suficiente para renovar a franquia. E o que dizer de ‘Scooby – O Filme’, uma espécie de surto coletivo da Warner lançado em 2020 que nos lembrou que o estúdio ainda tinha os personagens da Hanna-Barbera e resolveu jogar tudo na tela para ver o que funcionava.

E, por falar em Warner, vejam só: estamos aqui para falar de mais uma animação de um estúdio que, nos últimos anos, parece ter perdido o rumo quando o assunto é o gênero. Confesso que ‘O Gatola da Cartola’ não estava no meu radar para 2026. Criado por Dr. Seuss em 1957, o gatinho bagunceiro conquistou gerações com histórias que estimulam a imaginação infantil. Ainda assim, não diria que o personagem deixou uma marca tão profunda no entretenimento quanto outros ícones da literatura infantil. Entre séries animadas, curtas e uma adaptação em live-action lançada em 2003, responsável por traumatizar uma geração inteira, o Gatola não me parecia a escolha mais promissora para um reboot em tempos atuais. Mal sabia eu o quanto estava enganado.

‘O Gatola da Cartola’ é uma aventura cativante sobre imaginação e amadurecimento que, apesar de tropeçar em alguns aspectos técnicos, compensa suas limitações com uma narrativa emocionante e uma excelente trilha sonora.

Conhecido por seu jeito bagunceiro e pelo caos que provoca por onde passa, o Gatola da Cartola (Bill Hader) recebe sua missão mais desafiadora até então: levar alegria a Gabby (América Ferrera) e Sebastian (Tiago Martinez), dois irmãos que acabaram de se mudar, deixando para trás a cidade que chamavam de lar. Quando as coisas saem do controle, o trio embarca em uma aventura de imaginação e amadurecimento que os fará enxergar a vida com outros olhos.

Em uma era na qual o gênero da animação parece se afastar cada vez mais do 3D hiper-realista que dominou boa parte das produções da Pixar na última década, estava curioso para descobrir o que a direção de Erica Rivinoja e Alessandro Carloni dariam ao nosso querido gatinho. A conclusão da dupla é que um único estilo visual não seria suficiente para fazer jus ao escopo das aventuras do Gatola.

Misturando animação 3D e elementos 2D, este último fortemente inspirado por Homem-Aranha no Aranhaverso (2018), o longa aposta em cenários amplos, mágicos e repletos de personalidade. É interessante perceber que, assim como na franquia Toy Story, a produção se apropria de elementos comuns da infância para construir seu universo e dar vida aos personagens. Trabalhos escolares feitos com macarrão, desenhos simples de colorir e até peças de roupa parecem ter saído diretamente de um cesto de brinquedos, transformando referências cotidianas em parte da identidade visual do longa.

O grande destaque, naturalmente, é o próprio Gatola. Mais expressivo do que nunca, o personagem se beneficia de movimentos dinâmicos e cheios de personalidade. O longa entende as possibilidades da animação 2D e as utiliza a seu favor, criando sequências que parecem transbordar da imaginação do protagonista. Há uma liberdade visual que combina perfeitamente com o espírito caótico e imprevisível do personagem.

O mesmo, infelizmente, não pode ser dito de todos os elementos em 3D. Em cenários mais realistas, a falta de detalhes se torna evidente, enquanto os modelos dos dois irmãos apresentam um visual que contrasta com a riqueza estilística do Gatola e de seu universo imaginativo. Essa diferença acaba criando uma certa irregularidade na composição visual, como se os protagonistas humanos pertencessem a uma produção diferente daquela em que o Cartola rouba a cena.

Ao trazer as histórias do Gatola para um contexto contemporâneo, o filme aborda um problema que vai muito além da infância: a dificuldade de preservar a imaginação em um mundo que parece não nos deixar tempo para exercitá-la. Em uma era dominada pela tecnologia e por estímulos constantes, na qual crianças e adultos se acostumam a pular de uma novidade para outra, a animação nos convida a fazer uma pausa e olhar para além das regras que delimitam nossa realidade. Afinal, e se ainda houvesse espaço para transformar o cotidiano em uma grande aventura?

É através de Gabby e Sebastian que o longa desenvolve essa ideia. Os dois irmãos se veem presos em uma realidade de mudanças constantes após deixarem sua cidade natal para trás. Sem compreender completamente as motivações da mãe, precisam enfrentar, talvez pela primeira vez, os desafios que acompanham o crescimento: aceitar que nem sempre temos controle sobre o que acontece ao nosso redor e que amadurecer também significa aprender a lidar com aquilo que não escolhemos.

Há algo especialmente tocante na maneira como o filme retrata essa sensação de deslocamento. O mundo que as crianças conheciam já não existe da mesma forma, e o futuro parece tão incerto quanto a paisagem que observam pela janela. É nesse momento que a imaginação ganha um papel fundamental. Mais do que uma simples fuga da realidade, ela se torna uma ferramenta para compreender as mudanças, dar sentido ao desconhecido e descobrir novas possibilidades mesmo quando tudo parece fora do lugar.

Embora algumas piadas se prolonguem mais do que deveriam, comprometendo ocasionalmente o ritmo da narrativa, o filme não poupa esforços para conquistar o público emocionalmente. Isso fica especialmente evidente em sua reta final. Digo mais, acredito que o longa aborde com mais coragem e criatividade os desafios da infância contemporânea do que o recém lançado Toy Story 5, que parece abandonar o tema na metade de sua duração.

Tudo isso é acompanhado por uma excelente trilha sonora composta por Lorne Balfe, que não apenas resgata composições de outras produções do personagem, como também cria seus próprios momentos épicos. O destaque fica para a sequência do embate final, que parece ter saído diretamente de Vingadores: Ultimato.

O Gatola da Cartola não reinventa a roda nem explora territórios inteiramente novos. Ainda assim, é possível perceber o carinho da produção em entregar uma animação que fuja do óbvio, mesmo que tropece em alguns aspectos pelo caminho. Em um mundo que parece ter se esquecido de sonhar, todos nós precisamos, de vez em quando, da visita do Gatola em um dia chuvoso.