Com direção de Leo Bello, Cartório das Almas acompanha Laura, uma moça de 126 anos que consegue um emprego no Cartório das Almas, onde registra os motivos de pessoas que decidiram abrir mão da imortalidade. Seu trabalho consiste exclusivamente em compreender e descrever as razões que levam cada pessoa a escolher a morte, sem jamais tentar interferir em sua decisão. O paradoxo é que, embora passe os dias lidando diretamente com a morte, Laura é proibida por contrato de fazer o mesmo condenada a viver para sempre. No cartório, aqueles que recebem a senha de número zero deixam para trás a vida que conhecem e são transformados em pássaros. Enquanto isso, Laura permanece presa a um futuro marcado pela solidão e pela impossibilidade de escolher o próprio destino.
Pela própria sinopse, pode dar a impressão de ser um filme pesado. E ele é, principalmente pelos assuntos que escolhe abordar vida, morte, livre-arbítrio, memória, solidão e existencialismo. Mas uma das coisas que mais me chamou atenção é justamente a maneira como o filme trata tudo isso. Apesar de trabalhar com questões tão densas e de ser construído sobre inúmeras metáforas e analogias, sua narrativa é extremamente simples e direta. Você entende o que está acontecendo e, ao mesmo tempo, o filme deixa espaço para que você pense sobre aquilo.

Existe uma leveza curiosa na maneira como ele fala sobre a morte. E acho que isso funciona justamente porque é um filme extremamente minimalista. Ele não parece interessado em construir grandes cenários ou figurinos excessivamente elaborados, nem em explicar cada detalhe daquele universo. Ele vai direto ao ponto. E, ainda assim, tudo parece pensado para conversar entre si.
Os ambientes pelos quais passamos durante o filme parecem estar parados no tempo. Não sabemos exatamente em que época a história acontece, nem em que ano estamos, e essa ausência de uma temporalidade muito definida me parece proposital. É como se aquele universo estivesse suspenso em algum lugar, sem passado ou futuro muito claros. E isso acaba trazendo tanto um peso quanto uma certa beleza para o filme.
Os figurinos também ajudam bastante nessa construção. Cada pessoa que entra no cartório parece pertencer a uma época diferente, ou pelo menos carregar consigo referências temporais distintas. Não existe uma preocupação em uniformizar essas pessoas dentro de um mesmo período histórico, o que reforça ainda mais essa sensação de que estamos diante de um lugar fora do tempo.

E a própria Laura se diferencia visualmente de todos eles. O figurino dela tem algo que me remete à ficção científica e, ao mesmo tempo, existe uma espécie de fragmentação naquele visual que, para mim, conversa diretamente com a própria personagem. Ela parece uma pessoa confusa, dividida internamente, tentando entender coisas que ainda não consegue compreender. Ao mesmo tempo, as lapelas do casaco trazem uma certa rigidez e elegância, quase como se ela precisasse manter uma postura diante daquele lugar e daquela função. É uma personagem fragmentada, mas que precisa permanecer inteira por fora.
O filme também brinca bastante com a ideia de liberdade. Existe uma relação quase paradoxal na transformação dessas pessoas em pássaros. Não são simplesmente pássaros são pássaros pretos, corvos, uma figura que pode ser associada à morte. Mas o pássaro também é um símbolo muito forte de liberdade. E existe uma fala ou uma ideia dentro do próprio filme de que esses pássaros, quando transformados a partir das pessoas, não podem permanecer presos em gaiolas, porque morreriam. E aí surge uma das perguntas mais interessantes que o filme deixa será que a vida que aquela pessoa estava vivendo era justamente o que a impedia de ser livre?
É uma metáfora que fica ainda mais interessante porque o filme transforma aquilo que seria uma escolha pela morte em uma espécie de libertação. Existe uma sequência que me remeteu, inclusive, à ideia de uma execução, quase como uma cadeira elétrica, embora obviamente não seja o que está acontecendo. A alavanca que Laura puxa ficou muito marcada para mim por causa dessa associação. E acho que esse é um dos grandes méritos do filme ele não precisa explicar o tempo inteiro o significado de cada coisa. Ele apresenta as imagens e deixa que elas permaneçam na cabeça.

A própria Laura é uma personagem cercada por coisas que ela ainda não compreende. Existem os banhos que precisa realizar para continuar viva, por exemplo, e o filme não entrega todas as respostas sobre aquilo. Não sabemos exatamente como aquele sistema funciona, se existe alguma estrutura governamental por trás dele ou quais são todas as regras daquele universo. Sabemos apenas o suficiente para entender que aquilo é necessário para que Laura continue existindo da forma que exigem.
E existe também uma discussão muito interessante sobre memória. A ideia de que, se você não se lembra de determinada coisa, você também não carrega aquela dor da mesma maneira. A memória aparece quase como uma extensão da própria experiência de existir o que somos também é aquilo que lembramos, aquilo que nos machucou e aquilo que carregamos conosco. E, quando essas lembranças deixam de existir, o que acontece com a nossa relação com a própria dor?
Também gostei muito dos planos longos e contemplativos. E isso é até curioso, porque normalmente esse tipo de escolha pode me incomodar bastante, mas aqui não aconteceu. Os planos demorados parecem fazer parte da proposta. O filme quer que você permaneça ali, naquele espaço, observando, esperando, pensando. A própria duração das cenas contribui para essa sensação de estarmos presos naquele tempo suspenso.
A paleta de cores segue exatamente essa mesma lógica. É completamente dessaturada, composta por tons neutros, apagados, quase sem vida. Aquele mundo realmente parece ter perdido alguma coisa. Existe uma ausência de cor que acompanha essa ausência de movimento, de tempo e, em alguns momentos, até de emoção. Os diálogos também são poucos. Mas justamente por serem poucos, cada um deles parece carregar um peso maior. Não existe aquela necessidade de preencher todos os silêncios.
Uma possível questão para algumas pessoas é justamente a repetição da estrutura. Várias pessoas chegam ao cartório, cada uma com um motivo diferente, e Laura precisa ouvir, registrar e acompanhar essas histórias. Dependendo do espectador, isso pode acabar soando repetitivo, especialmente porque o filme já possui um ritmo bastante lento. Para mim, porém, essa repetição não chegou a ser desinteressante, porque cada pessoa traz uma razão diferente e, consequentemente, uma nova reflexão.

Você começa querendo entender por que aquela pessoa escolheu morrer e, no processo, acaba pensando sobre a própria vida. E talvez seja aí que Cartório das Almas se torne mais poético. Ele trata de assuntos que poderiam facilmente resultar em um filme extremamente triste ou pesado, mas escolhe outro caminho. Em vez de simplesmente provocar tristeza, ele provoca reflexão.
Pelo menos para mim, não foi um filme que ficou marcado pela sensibilidade no sentido convencional da palavra. Ele é muito mais direto do que isso. É quase frio em alguns momentos. Mas existe algo nessa frieza, nesse minimalismo e nessa objetividade que faz com que as ideias tenham ainda mais espaço para permanecer.
É um filme que parece querer nos fazer olhar para a maneira como estamos vivendo, para as escolhas que fazemos e para a própria ideia de liberdade. Principalmente para aquela pergunta que talvez seja a mais difícil de todas quando alguém escolhe morrer, o que exatamente essa pessoa está tentando deixar para trás? Talvez o mais interessante seja que o filme não tenta responder completamente a essa pergunta. Ele apenas coloca a questão diante de nós e nos deixa pensando sobre ela.

