Pega Essa Dica – Tatami

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Tatami, dirigido por Guy Nattiv e Zar Amir Ebrahimi, se passa durante um Campeonato Mundial de Judô em Tbilisi, na Geórgia, e acompanha a judoca iraniana Leila Hosseini, interpretada por Arienne Mandi. Durante a competição, a campanha promissora da atleta acaba se transformando em uma crise política quando as autoridades do Irã que não reconhece o Estado de Israel ordenam que ela abandone o torneio. O motivo é evitar um possível confronto com a judoca israelense Shani Lavi, vivida por Lir Katz. A ordem chega até Leila por meio de sua treinadora, Maryam, que já enfrentou uma situação parecida no passado. Quando Leila se recusa a fingir uma lesão ou desistir da competição, a situação escala rapidamente, trazendo ameaças contra ela, sua treinadora e até suas famílias que estão no Irã.

Depois de ler a sinopse de Tatami, confesso que não fiquei muito interessada de imediato. Filmes sobre esportes não costumam ser muito o meu universo, então não foi algo que me chamou atenção logo de cara. Mas assistir a esse filme foi uma grande surpresa.

A narrativa começa de forma bem gradual, apresentando os personagens e o ambiente com calma. Essa construção mais lenta funciona muito bem, porque aos poucos vamos entendendo quem são aquelas pessoas e qual é o peso daquela competição. Logo no início, algo já me chamou atenção e aqui entra uma ignorância que reconheço da minha parte por não ter muito contato com o universo esportivo eu nunca tinha parado para pensar que mulheres iranianas estariam competindo em um esporte como o judô em competições internacionais.

Ver aquelas mulheres ali, lutando, vencendo e representando seu país foi algo muito impactante. Como mulher, assistir a isso foi bonito e poderoso. Sabemos o quanto as mulheres no Irã enfrentam limitações e repressões, então ver atletas iranianas ocupando aquele espaço, demonstrando força e talento, foi algo muito significativo.

Mas o filme muda completamente de tom quando a protagonista começa a vencer e as ameaças começam a surgir. Nesse momento vem o choque como assim o próprio país não quer que ela traga essa vitória? Como assim essa conquista, que poderia ser motivo de orgulho, passa a ser tratada como um problema?

O filme é inspirado em fatos reais, e isso torna tudo ainda mais perturbador. A partir desse ponto, fica claro que a história não é sobre esporte. O esporte é apenas o cenário. O verdadeiro conflito está no poder, no controle e na tentativa de colocar aquela mulher em um lugar de impotência. As ameaças são covardes especialmente quando envolvem a família da atleta, colocando pessoas para pressioná-la e intimidá-la. É algo cruel e profundamente revoltante.

Ao mesmo tempo, o filme mostra algo que raramente vemos quando se fala do Irã o lado humano e afetivo dentro da própria família. O apoio que a protagonista recebe do marido e dos familiares é muito bonito de ver. Existe uma cena particularmente marcante em que alguém liga para o hotel e pergunta se o marido dela autorizou que ela saísse do país para competir. A reação dele é imediata e indignada ele deixa claro que não existe essa ideia de autorização, que ela é a campeã e que está ali por mérito próprio.

Esse momento revela algo muito importante quem está reprimindo aquela mulher não é a família dela. Quem está reprimindo é o próprio sistema do país. A família, ao contrário, é o grande suporte que permite que ela continue lutando. Essa dualidade é um dos aspectos mais interessantes do filme. De um lado, vemos o carinho, o orgulho e o apoio das pessoas que a amam. Do outro, vemos a crueldade de quem deveria estar celebrando sua conquista, mas escolhe pressionar, ameaçar e controlar.

A protagonista impressiona pela resiliência. E o mais interessante é que o filme não cai na narrativa fácil de que “o esporte salva”. Não é o esporte que salva essa personagem. O que sustenta tudo é a força das convicções dela, a clareza que ela tem sobre quem é e por que está ali. Ela tem orgulho do seu país e da sua origem, mas isso não apaga o absurdo de ser impedida de vencer justamente quando está levando orgulho para essa mesma nação.

Visualmente, o filme também chama atenção por ser todo em preto e branco. Isso não atrapalha em nada a experiência pelo contrário, acaba criando uma atmosfera ainda mais intensa e focada nos personagens. As cenas de luta são bem coreografadas e funcionam muito bem, mas, para mim, a parte mais interessante está nos bastidores. Nos corredores, nas salas, nas conversas. Os diálogos são fortes, diretos e carregados de tensão.

É um filme que prende do começo ao fim. Um filme que gera ansiedade, raiva e indignação, mas também admiração. Admirar a força de uma mulher que sabe exatamente quem é e por que está lutando.

Há também momentos em que vemos flashbacks da protagonista fora do tatame, apenas vivendo sua vida, sendo uma pessoa além das expectativas culturais impostas a ela. Esses momentos ajudam a lembrar que ali não está apenas uma atleta ou um símbolo político está uma mulher com história, com família e com sonhos.

Pessoalmente, tenho uma opinião muito clara quando uma cultura se baseia em agredir, menosprezar ou limitar a liberdade de alguém no caso, das mulheres isso deixa de ser cultura e passa a ser violência. E esse filme mostra justamente o momento em que uma mulher consegue enfrentar essa estrutura.

Tatami é um filme forte, tenso e profundamente humano. Mesmo para quem, como eu, não tem muito interesse em histórias sobre esporte, ele funciona de forma poderosa, porque no fundo não é sobre competição. É sobre dignidade, identidade e coragem.