Yes, longa dirigido por Nadav Lapid, acompanha um casal de artistas israelenses falidos que, sufocados pela realidade financeira, estão dispostos a aceitar qualquer trabalho pelo cachê até que um projeto controverso ligado ao governo os coloca diante de um dilema moral devastador.

O filme acompanha o pianista Y. (Ariel Bronz), que se vê obrigado a deixar sua paixão pelo jazz de lado para sustentar sua família. Para sobreviver, ele passa a aceitar uma sequência de “bicos” em apresentações vergonhosas, absurdas e por vezes grotescas, sempre para contratantes ricos e excêntricos. Ao lado da esposa Yasmin (Efrat Dor), o casal decide dizer “sim” para toda oportunidade que surgir, afinal, acabaram de se tornar pais de primeira viagem.

Depois de se submeterem a tarefas cada vez mais degradantes, eles se encontram diante de um conflito moral gigantesco quando Y. aceita compor a melodia do novo hino nacional de Israel cuja letra celebra a destruição completa do território e do povo palestino.
É um filme forte, por vezes confuso, e confesso que me deu até uma leve dor de cabeça. Mas talvez isso aconteça justamente porque ele cumpre muito bem seu objetivo. Yes é uma bagunça em muitos sentidos, mas emocionalmente é certeiro. O caos não é apenas estilo é a linguagem.
O filme foi escrito antes do massacre de 7 de outubro de 2023 e de todas as formas violentas como Israel vem agindo desde então, mas ainda assim parece prever o colapso moral e psicológico de uma sociedade inteira. Lapid mostra a impossibilidade de um artista processar quanto mais compreender o que aparece no celular dia após dia. Aos poucos, a alma de Y. vai sendo sufocada enquanto ele tenta manter as aparências para os outros e para si mesmo. O diretor coloca tudo isso para fora na tela, e é impossível não sentir a ansiedade e o desespero que transbordam do personagem. Para mim, é exatamente isso que faz o filme ser bom. Apesar do personagem ser bem chato.
O início traz uma energia altíssima, quase eufórica, dentro de uma festa. Mas mesmo ali já é possível perceber elementos que provocam reflexão sobre a forma como aquelas pessoas com tanto dinheiro se comportam, a hipocrisia em como querem ser vistas, a repressão disfarçada de moralidade. Elas controlam a si mesmas para parecerem corretas, enquanto acham natural reprimir os outros e apontar dedos.
Dividido em atos, o filme começa acompanhando o casal principal ainda com algum vislumbre de vida nos olhos, apesar dos desafios financeiros. Porém, depois de um capítulo intermediário onde fugir da realidade se torna impossível, o longa antes raivoso e quase satírico termina com uma sensação implacável de derrota. Essa transformação é encenada com uma sátira que, mais do que criticar, parece querer gritar.
O desespero está presente o tempo inteiro. Mesmo em cenas que poderiam soar engraçadas, basta um gesto, uma fala ou uma atitude para lembrar que isso aqui não é comédia. Os diálogos são pesados, muitas vezes confusos, mas também incrivelmente bem construídos. O filme caminha próximo do surrealismo, com cores vibrantes e uma energia quase animada… até mergulhar em um pesadelo surrealista estranho, sufocante.
Enquanto algumas pessoas parecem fingir e outras simplesmente não se importam com o massacre ao lado delas, as máscaras inevitavelmente começam a cair. O riso fácil de Y. e Yasmin só parece verdadeiro quando estão em casa, dançando e se amando. Mas nem ali existe paz. Quando olham as notícias sobre o número de mortos em mais um bombardeio executado por Israel, Lapid corta o som e substitui por gravações de palestinos em prantos e gritos. Nesse momento, parece que uma sombra se aproxima e não há para onde correr.

Existe uma urgência clara que vem do diretor e também do elenco, especialmente dos protagonistas. São dois atores dispostos a abandonar qualquer vaidade, sacrificando o corpo e a imagem para encenar o custo humano de viver fingindo que não há nada de errado acontecendo, mesmo a poucos quilômetros de onde moram. Yes tem sequências longas que, embora com muitas piadas perturbadoras e figuras caricatas, às vezes se tornam mais exaustivas do que eficazes.
No fim, é um filme estranho, mas com um propósito muito forte. É difícil dizer que eu “gosto” dele, mas ao mesmo tempo ele me impactou profundamente. A forma como é filmado é igualmente caótica, e isso amplifica a sensação de desespero. Assistir Yes não é uma experiência fácil, mas com certeza é uma experiência que muda alguma coisa dentro da gente.

