Eu e Meu Avô Nihonjin, dirigido por Célia Catunda, é uma animação brasileira desenhada à mão que mescla delicadeza estética com profundidade narrativa. O filme acompanha Noboru, um menino de 10 anos que decide investigar a história de seus antepassados. Movido pela curiosidade sobre sua descendência japonesa, ele recorre ao avô um homem reservado, que evita falar sobre o passado. A partir dessa busca, surgem tensões e descobertas: de um lado, o avô que se recusa a abandonar sua identidade japonesa; de outro, o neto que procura afirmar sua brasilidade. Entre silêncios e revelações, Noboru acaba descobrindo a existência de um tio desconhecido, ampliando ainda mais sua compreensão sobre família, memória e pertencimento.

O filme busca uma fusão única entre os estilos japonês e brasileiro, e faz isso com notável delicadeza. São culturas muito distintas em seus costumes e visões de mundo, e é emocionante perceber como a obra encontra um ponto de equilíbrio entre elas. Há uma beleza genuína em ver alguém orgulhar-se de suas raízes e transmitir esse legado, mesmo estando em um país diferente. Ao mesmo tempo, o longa não ignora as dificuldades desse processo: para o avô, que enfrentou a dureza da imigração e carregou marcas de preconceito e afastamento, preservar sua identidade japonesa é quase uma forma de resistência. Conhecemos sua realidade, que está longe de ser leve, e percebemos que há algo de heroico em sua trajetória mas também um preço alto a ser pago.
A animação nos lembra que contar a história dos antepassados é essencial para não deixar a memória se perder. Nesse sentido, o longa mostra não apenas como a criança aprende com o avô, mas também como o avô, ao se abrir para o olhar do neto, descobre novas formas de enxergar sua própria vivência. Essa troca entre gerações é o coração da narrativa e confere ao filme uma dimensão universal, capaz de dialogar tanto com descendentes de imigrantes quanto com qualquer espectador interessado em identidade, memória e pertencimento.
O filme foi produzido em animação 2D desenhada à mão, incorporando referências estéticas da cultura japonesa, e o resultado é simplesmente encantador. Além da força da narrativa, o aspecto visual se torna um espetáculo à parte. Cada detalhe do traço revela cuidado e identidade, criando uma estética única que se fixa na memória do espectador. A delicadeza das formas, unida à expressividade das cores, transforma a experiência em algo que vai além da história contada: é impossível não se deixar marcar pela beleza singular dessa animação.
O que mais encanta em Eu e Meu Avô Nihonjin é a forma como a animação se dirige às crianças: nunca de forma simplista ou condescendente, mas reconhecendo nelas verdadeiros indivíduos em formação, capazes de compreender e refletir sobre questões profundas. É uma obra inteligente, sensível e visualmente bela, que consegue emocionar sem perder leveza. Ao mesmo tempo em que ensina às crianças a importância de conhecer suas origens e valorizar a diversidade cultural, também oferece aos adultos um espaço de reflexão sobre memória, identidade e pertencimento. O resultado é um filme que dialoga com todas as idades, capaz de reunir a família inteira diante da tela e deixar uma marca duradoura em cada espectador.

