Lindas sim , letais já é forçar muito.
O longa parte de uma premissa simples, mas com potencial: um grupo de jovens acaba isolado em um ambiente estranho e perigoso, onde o que parecia ser apenas um imprevisto rapidamente se transforma em uma luta pela sobrevivência. O diferencial aqui está na tentativa de unir o terror com uma estética mais estilizada, flertando com o universo da dança e trazendo uma identidade visual que foge do padrão mais comum do gênero.

Sob a direção de Vicky Jewson e com roteiro de Kate Freund, o longa claramente tenta ser mais do que um terror convencional. Existe uma busca por estilo, por impacto visual e por um certo frescor narrativo. Em alguns momentos, isso até funciona. A atmosfera inicial é interessante, há uma construção de tensão que prende e a sensação de isolamento é bem trabalhada.
O problema começa quando o filme precisa sustentar essa proposta. O roteiro rapidamente se mostra frágil, com situações pouco desenvolvidas e decisões que parecem mais convenientes do que orgânicas. Falta profundidade na construção da história e, principalmente, nas personagens. O filme apresenta boas ideias, mas não consegue explorá-las com consistência, o que gera uma sensação constante de que poderia ser muito melhor do que realmente é.

O elenco é, sem dúvida, um dos pontos mais positivos. Iris Apatow, Lana Condor, Millicent Simmonds, Avantika Vandanapu e Maddie Ziegler conhecida mundialmente por ser a dançarina dos clipes da Sia,formam um grupo carismático e com boa presença de tela. Existe química entre elas, e em vários momentos isso sustenta cenas que, no papel, seriam muito mais fracas. Já Uma Thurman adiciona peso ao elenco, ainda que seu talento acabe sendo pouco aproveitado dentro da narrativa. Aliás, é uma de suas atuações mais fracas, passando a impressão de que está no piloto automático, quase como se fosse uma participação por obrigação, sem o envolvimento que normalmente marca sua presença em cena.

Visualmente, Lindas e Letais acerta mais do que erra. A fotografia e a proposta estética conseguem criar momentos interessantes, principalmente nas cenas que misturam movimento corporal com violência. As sequências de luta das bailarinas são bem coreografadas e chamam atenção justamente por trazerem uma fluidez diferente, quase como se cada confronto fosse uma extensão da dança. É nesses momentos que o filme realmente se destaca e mostra personalidade.
Por outro lado, o filme também força bastante sua própria lógica. Em diversos momentos, a narrativa tenta convencer o público de que bailarinas frágeis, sem qualquer preparo real para combate, conseguem enfrentar e derrotar vários homens apenas com movimentos coreografados de dança. A ideia até funciona visualmente, mas perde força quando se pensa na credibilidade das situações. Essa escolha acaba tirando parte do impacto das cenas e pode afastar quem busca algo minimamente plausível.

O tom também é extremamente irregular. O longa transita entre terror, ação e até um certo humor, mas não encontra equilíbrio. Essa indecisão prejudica a imersão e enfraquece a tensão, especialmente quando a história deveria estar mais intensa. Além disso, os antagonistas não conseguem transmitir ameaça real, o que compromete diretamente o suspense e diminui o impacto das cenas mais importantes.
Outro ponto que pesa contra é a superficialidade dos personagens. Apesar do bom elenco, faltam camadas, conflitos mais bem trabalhados e desenvolvimento emocional. O espectador entende o que está acontecendo, mas dificilmente se envolve de verdade com o destino de cada uma.
E quando o filme chega ao seu desfecho, a situação piora. O final é simplesmente tenebroso, sem coerência alguma com o que foi construído até ali. Em vez de amarrar a narrativa ou entregar um clímax satisfatório, a conclusão soa apressada, confusa e até preguiçosa, deixando mais dúvidas do que impacto. É aquele tipo de final que não só decepciona, mas reforça todos os problemas do roteiro.
No fim, Lindas e Letais é um filme que chama atenção pela proposta e por alguns momentos visuais bem executados, mas que se perde na execução. Funciona como um entretenimento rápido, até envolvente em certos trechos, porém irregular e esquecível no conjunto.
É aquele tipo de filme que você até curte enquanto assiste mesmo achando forçado, mas dificilmente vai lembrar e revisitar.

