Pega Essa Dica – Cartório das Almas

cinema Crítica Cinema filme Pega Essa Dica Pega Essa Novidade

Todos nós, em algum momento, já questionamos a mortalidade. É natural. Assim como cada religião possui sua própria interpretação sobre o que existe depois da morte, também carregamos nossas dúvidas, nossos medos e a curiosidade sobre o que nos espera ao fim da vida. Para onde vamos? Quanto tempo ainda nos resta? E, acima de tudo, o que faríamos se tivéssemos a possibilidade de viver muito além daquilo que conhecemos?

Não é de hoje que a ficção explora essas questões. Seja através de histórias fantásticas sobre personagens que descobrem o que existe além da vida e encontram aqueles que já partiram, como em Ghostbusters: Mais Além (2021), ou até mesmo investigando o que acontece antes de nascermos, como faz a animação Soul, da Pixar, lançada em 2020. O cinema sempre encontrou maneiras curiosas de transformar nossas maiores dúvidas existenciais em histórias capazes de nos emocionar.

O projeto de hoje, fruto do cinema independente brasileiro, parte de uma perspectiva um pouco diferente: qual seria o preço de viver por tempo demais? A ideia não é completamente inédita. O Preço do Amanhã, dirigido por Andrew Niccol e lançado em 2011, também explorou uma sociedade na qual o tempo se torna a moeda mais valiosa da existência. Entretanto, a abordagem independente de Cartório das Almas, marcada também pelas limitações de seu orçamento, encontra espaço para percorrer esse questionamento por caminhos mais poéticos e contemplativos.

Cartório das Almas é uma viagem reflexiva pela natureza da humanidade e pela relação que construímos com a própria existência. Uma obra sensível, que encontra beleza em suas inquietações, mesmo que demonstre dificuldade em fazer suas ideias aterrissarem por completo.

Em um mundo no qual a humanidade encontrou uma maneira de prolongar a própria existência, conhecemos Laura (Gabriela Correa), uma “jovem” de 126 anos contratada pelo Cartório das Almas. Sua função é aparentemente simples: registrar e protocolar os motivos que levam as pessoas a renunciar à eternidade e abrir mão da vida eterna. No entanto, ao entrar em contato com as histórias e escolhas daqueles que decidem encerrar sua jornada, Laura começa a questionar a própria existência. Afinal, será que realmente viveu tudo o que poderia ou está apenas prolongando uma vida que já não sabe como aproveitar?

Como mencionei anteriormente, não temos aqui a história ou o conceito mais originais do mundo. No entanto, o que diferencia o projeto do diretor Leo Bello de outras produções que abordaram temas semelhantes é justamente seu minimalismo. Filmado em Brasília, o longa trabalha com uma paleta de cores escura, que por vezes se aproxima do preto e branco, construindo a imagem de uma sociedade que descobriu como prolongar a própria existência, mas que, ainda assim, parece ter perdido a capacidade de encontrar felicidade nela. Não há cidades destruídas ou construções em ruínas. Pelo contrário, tudo parece devidamente em seu lugar. É como se aquele mundo simplesmente existisse, como se a vida que um dia habitou aqueles espaços tivesse se transformado em um eco distante, levado pela ventania.

Essa atmosfera é acompanhada pela brilhante e angustiante atuação de Gabriela Correa no papel de Laura. A personagem demonstra uma profunda apatia em seus gestos, mas é através de seu olhar que conseguimos enxergar alguém enclausurada em si mesma, desesperadamente precisando gritar e encontrar uma maneira de se libertar. Sua interpretação carrega um peso quase palpável, como um grito silencioso que implora pela misericórdia do tempo, por um abraço, por algum sinal de afeto em um mundo que parece ter se esquecido de sentir.

O longa dedica boa parte de sua narrativa aos relatos daqueles que se sentam diante de Laura para renunciar à eternidade. Nesse processo, ela e nós, espectadores, ocupamos essencialmente a mesma posição: a de quem escuta, sem julgamentos ou interrupções. É justamente nesse espaço de silêncio e acolhimento que a produção encontra oportunidades para abordar questões delicadas, como a depressão e a solidão de pessoas que anseiam por liberdade, mas nem sempre encontram compreensão daqueles ao seu redor. Às vezes, tudo o que alguém precisa é de um espaço onde possa ser ouvido, sem precisar justificar a própria existência. Alguém disposto a escutar como se não houvesse amanhã.

Uma das características mais marcantes do cinema independente é justamente a necessidade de trabalhar dentro das limitações de orçamento. Entretanto, posso dizer tranquilamente que isso passa longe de ser um problema para Cartório das Almas. Com belos planos abertos, uma composição visual cuidadosa e o uso inteligente de sua paleta de cores, o longa demonstra um domínio estético que não deve nada a produções de orçamentos muito maiores. Existe uma identidade visual bem definida, que contribui diretamente para a construção daquele universo e para a atmosfera melancólica que acompanha a jornada de Laura.

O problema, infelizmente, está na extensão de sua narrativa. Em determinados momentos, o filme parece perder a confiança de que o espectador está acompanhando suas ideias e acaba insistindo em situações que já tiveram seu propósito estabelecido. A obra é silenciosa, contemplativa e possui poucos diálogos, características que funcionam muito bem dentro de sua proposta. No entanto, em uma tentativa de manter todos na mesma página, acaba prolongando cenas e retornando a questões que já haviam sido suficientemente exploradas. Veja bem, não estou dizendo que a complexidade de uma obra diminui sua qualidade, muito menos que um filme precisa entregar todas as respostas ao público. O que questiono é a necessidade de percorrer tantas vezes o mesmo caminho quando sua mensagem central já encontrou espaço para florescer. Em alguns momentos, a sensação é de que o longa continua caminhando mesmo depois de já ter chegado ao seu destino.

Cartório das Almas não é perfeito, tampouco um filme para todos os públicos. Admito que, durante sua duração, minha própria opinião oscilou algumas vezes entre o encantamento e o cansaço. Ainda assim, existe algo de muito bonito na maneira como a produção encontra poesia na mortalidade e delicadeza em assuntos tão difíceis de abordar. Talvez sua maior qualidade esteja justamente nisso: fazer com que continuemos pensando sobre a vida, o tempo e tudo aquilo que deixamos pelo caminho mesmo depois que deixamos a sessão.