Pega Essa Dica – Labirinto dos Garotos Perdidos

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Labirinto dos Garotos Perdidos, dirigido por Matheus Marchetti, acompanha Miguel, um jovem do interior que viaja para São Paulo em busca de um garoto que conheceu por aplicativo. O que começa como uma jornada motivada pelo desejo e pela possibilidade de um romance rapidamente se transforma em uma experiência caótica, sensual e perturbadora. Enquanto um assassino em série responsável pela morte de jovens gays circula pela cidade, Miguel se vê perdido em encontros estranhos, relações intensas e situações que parecem oscilar constantemente entre sonho, pesadelo e fantasia.

Esse é um daqueles filmes que terminam deixando muito mais perguntas do que respostas e, sinceramente, acho que isso funciona totalmente a favor da proposta. O filme quer que o espectador se sinta perdido. Ele quer nos colocar dentro desse labirinto emocional, psicológico e até físico junto com os personagens. Existe uma confusão proposital na narrativa, uma sensação constante de deslocamento, e isso acaba tornando a experiência muito mais imersiva.

Logo no início, quando o filme abre com uma porta sendo destrancada e uma narração lúdica, imediatamente somos levados para o universo das fábulas e dos contos. E é interessante como ele utiliza essa estética narrativa associada ao infantil para construir justamente o oposto. Labirinto dos Garotos Perdidos está muito longe de ser um filme infantil, mas brinca o tempo inteiro com símbolos e estruturas típicas de histórias fantásticas. Conforme o filme avança, é possível identificar referências a diferentes contos e arquétipos clássicos, e reconhecer essas inspirações faz com que a obra ganhe ainda mais camadas.

A partir do momento em que Miguel atravessa essa “porta”, parece que ele entra em um universo onde tudo funciona através do desejo. O filme trabalha constantemente com a ideia de prazer e sacrifício caminhando juntos. Miguel passa por diferentes encontros, diferentes relações e diferentes experiências, mas existe sempre uma sensação de incompletude. O prazer nunca chega de fato, ele está sempre sendo prometido, nunca plenamente alcançado. E talvez seja justamente isso que torne o filme um pouco melancólico.

Apesar de ser um filme com referências ao terror, ele não busca assustar de maneira tradicional. A violência existe, mas raramente aparece de forma explícita ou gráfica. O longa opta por transformar a brutalidade em algo quase performático, quase artístico. Muitas cenas parecem quadros vivos. Em vários momentos, eu me peguei olhando para a tela e pensando que aquilo parecia uma pintura ou uma instalação artística. Grande parte disso vem do trabalho de fotografia, que é provavelmente um dos aspectos mais fortes do filme. A escolha de cores, iluminação e enquadramentos cria uma atmosfera extremamente hipnotizante, desconfortável e bonita ao mesmo tempo.

Existe também algo muito interessante na maneira como o filme trabalha o tempo. Em nenhum momento temos uma noção clara de quanto tempo está passando. Não sabemos exatamente se é dia ou noite, quanto tempo Miguel está vagando pela cidade ou até se tudo realmente está acontecendo da maneira como vemos. Pessoas surgem do nada, conflitos acontecem de maneira abrupta e ambientes parecem mudar sem explicação. Enquanto Miguel parece aceitar esse fluxo estranho com certa naturalidade, nós, espectadores, ficamos cada vez mais desnorteados.

A presença do serial killer dentro da narrativa também funciona além do terror em si. Existe uma crítica muito evidente à violência sofrida por pessoas LGBTQIA+, principalmente jovens gays, e como esses corpos constantemente vivem em situação de vulnerabilidade. O filme transforma esse medo em algo quase fantasmagórico, como uma ameaça que ronda a cidade inteira. E conforme a narrativa avança, essa violência ganha camadas ainda mais dolorosas.

Outro ponto que me chamou atenção foi o protagonista. Miguel começa o filme com uma inocência quase infantil. Ele viaja em busca de amor, mas acaba encontrando uma cidade que parece devorá-lo emocionalmente. Achei muito inteligente a escolha de figurino dele, especialmente o uso do macacão jeans. Existe algo naquela roupa que reforça essa ideia de juventude, ingenuidade e descoberta. Como ele vem do interior, o filme parece propositalmente exagerar alguns traços dessa inocência, quase transformando Miguel em um personagem de conto perdido em um universo muito maior do que ele consegue compreender.

As atuações foram um ponto que me dividiram bastante. Existe uma teatralidade extremamente forte no filme inteiro. Tudo é muito intenso, exagerado e performático. Entendo que isso faz parte da proposta estética do longa, mas em alguns momentos me causou certo incômodo. Algumas cenas parecem dramáticas demais, quase artificiais, e isso acabou me afastando emocionalmente em determinados momentos. Ainda assim, faz sentido dentro desse universo surreal e simbólico que o filme constrói.

No fundo, parece falar muito sobre carência, solidão e desejo de pertencimento. Todos os personagens carregam algum tipo de melancolia, mesmo aqueles que escondem isso atrás de ego, humor ou desejo sexual. O filme também brinca bastante com os absurdos dos encontros modernos e dos aplicativos, trazendo situações bizarras e até engraçadas. Algumas cenas funcionam quase como sátiras dos próprios padrões e comportamentos desse universo, e isso ajuda a equilibrar a tensão da narrativa.

O que mais gostei no filme foi justamente essa capacidade de caminhar entre o encantamento e o desconforto. Ele consegue ser bonito e perturbador ao mesmo tempo. Assim como os contos de fadas clássicos, existe sempre uma sensação de perigo escondida por trás da fantasia.