Nada de novo sob o sol nessa história.
Elize: Sombras de Uma Mulher é um filme tecnicamente competente. A direção de Felipe Vellas cria uma atmosfera sufocante e o roteiro de Raphael Montes e Mariana Torres transforma um dos crimes mais conhecidos do Brasil em um suspense envolvente.

O grande destaque é Lorena Comparato. A atriz entrega uma interpretação impecável, construindo uma personagem que transita entre dois extremos: ao mesmo tempo em que convence como uma mulher fragilizada pelas circunstâncias, também nunca deixa o espectador esquecer que estamos diante da vítima e da vilã da própria história.
O problema, para mim, está na forma como a narrativa escolhe contar essa história.
O filme adota quase exclusivamente o ponto de vista de Elize. Tudo o que vemos passa pelo olhar dela, pela versão que ela apresenta dos acontecimentos e pela maneira como ela se enxerga. Se essa versão corresponde totalmente aos fatos, nunca saberemos. O resultado é uma narrativa que, em muitos momentos, parece colocá-la na posição de vítima.
E é justamente aí que o filme me perde.

Independentemente do que existia dentro daquele relacionamento, Elize não é uma vítima. Ela foi extremamente cruel. Não matou Marcos Matsunaga em um ato de legítima defesa ou em um momento impulsivo. Após o assassinato, tomou uma série de decisões conscientes: esquartejou o corpo, colocou os restos mortais em malas, tentou ocultar o cadáver, espalhou as partes pela Estrada de Cotia e ainda realizou movimentações bancárias após a morte do marido. Esses atos demonstram planejamento e tornam impossível ignorar a brutalidade do crime.
Ao mesmo tempo, também é verdade que o filme levanta uma discussão importante sobre violência doméstica e relacionamentos abusivos. Se a história tivesse seguido outro caminho, talvez Elize fosse apenas mais uma mulher vítima de feminicídio, como infelizmente acontece todos os dias. Essa reflexão é válida e merece ser debatida.
Mas discutir esse contexto não deveria significar suavizar ou relativizar um assassinato. É possível reconhecer que alguém tenha vivido uma relação abusiva e, ao mesmo tempo, afirmar que essa pessoa também cometeu um crime brutal. Uma coisa não anula a outra.

Outro ponto que me incomoda é que, até hoje, a própria Elize mantém o discurso de que fez tudo pensando na filha e afirma que um dia contará toda a verdade sobre o caso. No entanto, essa suposta verdade nunca foi apresentada. O filme acaba sendo construído quase inteiramente a partir da narrativa de alguém que ainda guarda muitas respostas para si. Se elas existem ou não, provavelmente nunca saberemos.
No fim, Elize: Sombras de Uma Mulher é um bom filme, com ótimas atuações e uma narrativa envolvente, mas que escolhe apresentar apenas um lado da história: o de Elize. Como obra de ficção inspirada em fatos reais, funciona muito bem. Como retrato equilibrado do caso, deixa a desejar justamente por privilegiar a versão de quem sobreviveu para contá-la.
Elize: Sombras de Uma Mulher já está disponível na Netflix.

