Pega Essa Dica – Feito Pipa

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Filme com temas pesados e, ao mesmo tempo, leve.

A direção de Allan Deberton está impecável, conduzindo uma história sensível, com uma fotografia linda e momentos que conseguem tocar o espectador. É um filme bonito, gostoso de assistir e que encontra na relação entre seus personagens a sua maior força. Porém, mesmo com tantas qualidades, fica aquela sensação de que faltou algo para transformar uma boa história em um filme realmente marcante.

Gugu é um menino que sonha em ser jogador de futebol e vive com a avó Dilma, com quem mantém uma relação de amor e cumplicidade. Quando a saúde dela começa a se fragilizar, ele passa a temer a possibilidade de morar com o pai, Batista, com quem tem uma relação difícil. Em meio a essa situação, o filme aborda questões como preconceito, homofobia, identidade e os desafios de crescer em um ambiente que nem sempre está preparado para aceitar as diferenças.

É lindo ver a relação afetiva entre Gugu e a avó. Existe uma ternura genuína nessa convivência, e Teca Pereira contribui muito para que essa ligação funcione na tela. É justamente nesses momentos mais íntimos que o filme encontra sua essência, mostrando como o acolhimento e o amor podem fazer a diferença na vida de uma criança. A direção de Allan Deberton demonstra segurança ao construir essas cenas, enquanto a fotografia valoriza os ambientes e ajuda a criar uma atmosfera acolhedora.

Yuri Gomes é um dos grandes acertos do filme. Sua interpretação dá vida a Gugu com naturalidade, carisma e sensibilidade, fazendo com que o público se conecte com o personagem. É uma atuação que merece reconhecimento e que sustenta boa parte da narrativa. Lázaro Ramos também entrega uma interpretação interessante como Batista, mas é justamente na construção desse personagem que encontro um dos problemas do longa.

A tentativa de não transformar o pai em um vilão acaba enfraquecendo parte do conflito. Em determinados momentos, seria interessante que o filme tivesse coragem de explorar esse lado mais cruel do personagem, deixando que suas atitudes tivessem consequências mais fortes antes de conduzi-lo a uma possível redenção. Nem todo conflito precisa encontrar um equilíbrio tão rapidamente, principalmente quando estamos falando de preconceito e homofobia. Uma abordagem mais dura poderia tornar a transformação do personagem muito mais significativa e convincente.

O roteiro, infelizmente, é um dos pontos mais frágeis. A proposta é boa, os temas são relevantes e existe espaço para uma discussão muito mais profunda, mas falta coragem para mergulhar em algumas questões. Na vida real, essa história não é um conto de fadas, e o filme parece suavizar situações que poderiam ser muito mais impactantes. Não se trata de tornar tudo pesado o tempo inteiro, mas de permitir que determinados conflitos tenham o peso que merecem, sem aliviar tanto as consequências para os personagens.

A combinação de humor e drama funciona, mas nem sempre. Em alguns momentos, a leveza ajuda a aproximar o público dos personagens e torna a experiência mais agradável. Em outros, porém, a mudança de tom quebra a construção dramática que vinha sendo desenvolvida. Quando uma cena começa a trabalhar uma questão delicada e o humor entra de maneira pouco natural, parte da emoção se perde. É uma escolha que poderia ter sido trabalhada com mais sutileza, preservando a força dos momentos dramáticos sem abrir mão do humor.

Apesar dessas falhas, Feito Pipa é um filme que merece ser visto. A direção está impecável, a fotografia é linda, Yuri Gomes é um grande destaque e a relação entre Gugu e a avó é daquelas que aquecem o coração. É um longa rápido, leve e gostoso de assistir, mesmo tratando de assuntos pesados. O problema é que, ao tentar equilibrar tudo, acaba deixando de aprofundar justamente os temas que poderiam torná-lo mais potente.

Feito Pipa é um filme que tinha potencial para ser muito mais impactante, principalmente pela coragem de abordar temas como preconceito e homofobia através de uma história tão sensível. Faltou ao roteiro mergulhar mais fundo nesses conflitos, abandonar algumas facilidades e entender que nem toda história precisa suavizar suas dores para emocionar. Ainda assim, a direção impecável de Allan Deberton, a fotografia linda, a atuação de Yuri Gomes e a relação emocionante entre Gugu e sua avó fazem o longa valer a pena.

É um filme que consegue ser leve mesmo tratando de assuntos pesados, mas que poderia ter sido mais corajoso e provocador. Mesmo com suas falhas, merece reconhecimento e tem força para representar o cinema brasileiro na corrida pelo Oscar. Porque, às vezes, o que falta em um filme não é beleza ou emoção, mas coragem para ir até o fim naquilo que se propõe a contar.